• Emilie Andrade

Vestir histórias


"Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio. Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fecundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai."

Eduardo Galeano, Livro dos Abraços

Há muitos anos li esse texto e fiquei querendo fazer uma saia como essa, cheia de bolsos, uma roupa-portal-de-histórias. Tentei algumas vezes, mas não fiquei muito feliz com o resultado.


Depois de alguns anos encontrei essa foto:

É a imagem de uma mulher da tribo Herero da Namíbia fotografada em 2012 por Jim Naughten.

Não sei dizer exatamente porque, mas comecei a ver um caminho mais claro. Descobri que seria um vestido e não uma saia.

Mostrei para uma amiga da área de moda com quem trabalhava na época e ela ficou de fazer o vestido. Sem motivo aparente, a coisa não foi pra frente.

Ao mesmo tempo que pensava que era uma bobagem tanta preocupação com uma roupa, intuía que o que eu buscava não era apenas um figurino.


Mais alguns anos passados, fui à exposição de fotografias "Variações do corpo selvagem" do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e encontrei o trecho aí do lado:

Foi então que entendi que o que eu buscava era uma roupa-instrumento que me ajudasse a ser/estar no outro tempo/espaço que se cria ao compartilhar histórias.

Descobri que a palavra instrumento vem do latim instrumentum, que significa ferramenta, vestimenta.

Fiquei pensando e achei que essa roupa-instrumento tem de nascer de histórias... (e olha a história dela se construindo aqui)... Mas, queria mais...

Agora encontrei a Day Mari, uma artista que há tempos eu namorava virtualmente. É ela quem vai costurar todas essas histórias na forma de um vestido. Fazer o registro desse processo, que começa com esse texto, foi sugestão dela também.

Próximos passos: agora precisamos encontrar os tecidos e é aqui que vocês entram nessa história e esse post vira um pedido:

Queridos,

Estou recolhendo doações de roupas usadas, retalhos, lenços, enfim, qualquer coisa feita de tecido leve (blusa de lã, por exemplo, não funciona rs) para construir minha roupa-instrumento. A peça doada não precisa ter nenhuma história especial (se tiver é ótimo e vou amar ouvir), mas se não, tudo bem. A história vai vir silenciosamente com tudo que você viveu com ela.

Então, se você tiver alguma peça pra me dar de presente escreve aqui embaixo nos comentários ou pelo face ou pelo e-mail, por favor? Eu dou um jeito de buscar ou a gente marca um chá e bate um papo. Que tal?

Por hora é o que temos. Seguiremos conversando. Agradeço ter lido até aqui. Até breve.

#figurino #vestirhistórias #EduardoGaleano #JimNaughten #Herero #Variaçõesdocorposelvagem

Um jeito de começar a se aproximar das histórias é cuidar da sua própria. Quer experimentar?

Deixa seu e-mail aí embaixo que te mando de presente a

"ÁRVORE DA VIDA.

 

Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

Ficou curiosa?

é só visitar www.sementeira.art