• Emilie Andrade

sobre a escuta


Faz um tempo, lembro de estar andando na rua e ver, de rabo de olho, um rapaz começando a correr na minha direção. Meu corpo inteiro gelou e eu parei. O homem passou por mim, corria para alcançar o ônibus que estava saindo. Fiquei com isso martelando na cabeça. Meu corpo teve a certeza que aquele rapaz era uma ameaça. Meu coração acelerou, meus braços e ombros se encolheram, ficou gelado na boca do estômago. Meu corpo percebia coisas que não estavam lá, ou estavam? No fim das contas, não estão diariamente?

Faz tempo também que a escuta tem me tomado os pensamentos e a prática (não só a artística, mas com a família, com os amigos, com estranhos também). Como é escutar de verdade, por inteiro? Sem plantar no que o outro diz ou faz as suas próprias sementes? Sem tentar decifrar com as suas pistas? Apenas ouvir. Li em algum lugar que, ouvir imparcialmente é uma das coisas mais difíceis que um ser humano pode fazer. Concordo.

Fico querendo ir viver mais perto da natureza também por isso. Pra escutar outras coisas, escutar sem entender, sem querer. A água, os animais, o céu e a terra. Escutar profundo mesmo. Escutar eu mesma. Faz um tempo que tenho esse desejo, um desejo que tem a ver também com esse perceber o outro, o que é ameaça e o que é força.

Ser contadora de histórias ajuda bastante nessa tarefa auto-atribuída. Faz um tempo que chamo a minha pesquisa com a arte de contar histórias como a poética da escuta (um dia vou escrever sobre isso por aqui) porque como contadora de histórias essa habilidade de escuta profunda me ajuda a aprender o tempo todo, com cada pessoa e história que encontro, ajuda também a saber qual história contar em cada situação. Enquanto vivo no caos barulhento da cidade, aproveito pra treinar. A gente fica muito frágil vivendo no olho do furacão o tempo todo, vai deixando de se escutar e de escutar o outro. Talvez seja por isso que a gente cria essa casca dura, essa testa enrugada, esses ombros levantados: pra proteger esse dentro nosso que, na verdade, é molinho, molinho.


#escuta #cotidiano #reflexão #morte #natureza #casa

Um jeito de começar a se aproximar das histórias é cuidar da sua própria. Quer experimentar?

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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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