• Emilie Andrade

Raven e a Baleia


2013 foi muito bom, apesar de tudo. Nele, aprendi a não confiar demais nos planos que faço, mas ao mesmo tempo, aprendi a seguir firme no caminho que escolhi. A pergunta fundamental deste ano pra mim é: quando alguma coisa que a gente quer muito insiste em não se concretizar apesar dos nossos esforços, quando se deve abrir mão, ou, até quando se deve insistir num desejo? Será que não era mesmo para ser? Será que o que é meu está realmente guardado?


No final das contas, me parece que a escuta da resposta é muito mais do coração-alma, ou seja, do próprio corpo. Aquela voz que fala com a gente quase todo o tempo e que eu estou cada vez mais aprendendo a ouvir. Pois muito bem, entendi a mensagem e esse ano decidi que essa cidade maluca não é mais o lugar que quero viver. Não quero abrir mão de viver numa casa com árvores no quintal, de dormir no silêncio, de fazer qualquer coisa que eu quiser numa quarta-feira a tarde para viver na metrópole. Agora, é preciso descobrir onde.

O "lugar" onde quero existir é muito mais que apenas uma casa ou uma cidade, ele contém muitas outras coisas que me ajudam a ser eu mesma e que não consigo (por várias razões) ter por aqui: o contato com a natureza, perceber o tempo das coisas, o respeito ao meu corpo, o ritual de viver cada dia. 2014 será um ano para buscar desse lugar.

Segue uma história que me lembra dessas coisas todas e que li no dia de ano novo. Ela está no livro, “Stories to nourish the heart of our children” (Histórias para nutrir o coração das nossas crianças), da contadora de histórias americana Laura Simms. Neste livro Laura reconta essa história que é de origem iniute. Aqui, me atrevi a fazer uma livre (e rápida) tradução.

Essa é a história que quero ficar perto esse ano.


No começo dos tempos, Raven (na história se trata de nome próprio, porém, raven quer dizer corvo) criou o mundo. Raven era ao mesmo tempo um deus e

um pássaro com um homem dentro. Depois que Raven criou tudo, ele decidiu permanecer na terra. Ele amava as pessoas e os animais e era muito curioso sobre eles. Mesmo tendo criado o mundo, ele não conhecia tudo que havia para conhecer. O deus gostava de sair com seu caiaque pelo mar. Um dia ele viu uma baleia enorme e disse: “Eu imagino como será dentro da barriga da baleia”. Então, esperou que a baleia bocejasse e quando a boca dela estava bem aberta, remou direto para dentro dela. Amarrou o caiaque em um dos dentes da baleia e começou a caminhar. A boca da baleia se fechou por trás de Raven e ele ficou lá dentro no escuro. Até que, ele começou a ouvir um som que parecia um tambor ou um trovão distante. Caminhou em direção ao som até chegar na barriga da baleia, que parecia uma grande catedral. Lá, Raven viu uma moça muito bonita que dançava. Ela tinha fios amarrados em suas mãos e pés e os fios vinham do coração da baleia. Raven pensou: “Ela é linda e eu gostaria de me casar com ela”. Então, disse a ela: “Meu nome é Raven e eu criei o mundo. Você não quer vir comigo e se tornar minha mulher?” A donzela respondeu: “Raven, eu não posso sair da baleia. Eu sou o coração e a alma dela. Mas, se você quiser ficar aqui e me fazer companhia, eu ficarei muito feliz.”

Então, Raven puxou seu bico para trás revelando seu rosto humano, tirou suas asas, se sentou com as mãos sobre os joelhos e observou a menina dançar. Quando ela dançava rápido a baleia subia para superfície e dava giros. Quando ela dançava devagar e baleia boiava calmamente. Logo, a moça dançou tão devagar que até parou e fechou os olhos. A baleia permaneceu parada também. Raven sentiu uma brisa gelada vindo daquele buraco que as baleias têm de onde elas esguicham água. Ele pensou novamente em levar a moça com ele para o mundo. Pensou tanto que se esqueceu do que a menina havia lhe dito. Então, ele puxou novamente seu bico sobre seu rosto, cobriu seus braços com suas asas, voou e pegou a menina. Ele ouviu os fios arrebentando enquanto voava pelo buraco da baleia céu afora. Enquanto voava, Raven ouviu o som da baleia morrendo no mar e viu o corpo dela ser jogado na praia pelas ondas. A menina foi ficando pequena, pequena e desapareceu. O deus, então, percebeu que tudo que está vivo tem coração e alma e tudo que nasce no mundo, morre. Ele foi tomado por uma grande tristeza. Chorou e chorou por semanas. Até que Raven, começou a dançar e ele dançou por semanas. Então, ele começou a cantar e cantou e cantou por semanas até que seu coração se acalmou. Assim, o deus prometeu aos humanos e aos animais que sempre voltaria ao mundo que criou, desde que eles cuidassem uns dos outros e entendessem que todos que nascem e morrem tem coração e alma. As lágrimas de Raven foram as primeiras lágrimas. Sua dança e música de dor e cura foram a primeira dança e a primeira música do mundo.

#RaveneaBaleia #contotradicional #inuite #anonovo

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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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