• Emilie Andrade

O poder das histórias


O Boca do Céu é o Encontro Internacional de Contadores de Histórias que acontece a cada dois anos em São Paulo. Em maio deste ano participei pela primeira vez dessa festa e a minha sensação, mesmo sendo ainda aprendiz dessa arte de contar histórias, foi a de estar em casa.


Participei de palestras, apresentações e de duas oficinas: uma com o Grupo Lume e outra com o canadense Jamie Oliviero. Durante a oficina ele contou uma história e quando terminei de ouvir, muito emocionada, pensei: é isso que eu quero fazer o resto dessa vida!


Aqui embaixo reconto a história do jeito que ela ficou em mim.

O poeta francês Robert Desnos foi torturado durante meses para que delatasse seus colegas da resistência para os invasores nazistas. Depois de muito tempo sob grande violência e resistindo dignamente sem entregar um só nome, foi levado para um campo de concentração.


Um dia, um caminhão boiadeiro apareceu no meio do pátio e muitos presos foram levados até o caminhão, entre eles Desnos. Todos sabiam o que estava por vir. As pessoas estavam em tal estado de torpor pelos sofrimentos aos quais foram submetidos, que a morte poderia ser considerada um alívio.


Foram levados para um lugar ermo onde havia sido cavada uma longa vala. Nem uma palavra foi falada na multidão, nem dos próprios guardas. Mas, um homem ficou entre os outros com uma energia brilhante, uma alegria estranha e quando o caminhão parou saltou para a frente da fila de saída. O poeta, depois de descer da carroceria, se virou para ajudar uma moça que descia logo atrás dele. Pegou sua mão, ajudou-a, mas mesmo depois que os pés da moça tocaram o chão, ele continuou segurando e como de brincadeira, naquela hora mais improvável, começou a ler na mão da jovem um futuro muito bonito.


O poeta contou do futuro maravilhoso que ela teria, que encontraria um homem bom que a amaria muito, os três filhos que ela teria, das coisas que veria. E a mulher, de repente, sorriu. Quanto mais ele contava, mais ela sorria.


Ao ouvir aquelas risadas e entender porque elas aconteciam, as outras pessoas também quiseram saber de sua sorte e o poeta, uma a uma, lia as mãos trêmulas e narrava a bela fortuna de cada uma delas. Logo, aquelas pessoas que pareciam já estarem mortas mesmo em vida, voltaram a ter cor e sorrir, imaginando a vida que poderiam ter. Havia uma doce alegria no ar.


Vendo os rostos sorridentes das pessoas cujas vidas naquele momento estavam em completo risco, dos olhos dos guardas algumas lágrimas caíram e o líder deu a ordem: mandou que que todos voltassem para o caminhão.


É esse o poder das histórias: elas criam futuros. Literalmente.


Thank you Jamie for the story!


(17 de maio de 2010)


#festival #escreverapropriahistoria #bocadoceu #robertdesnos #jamieoliviero



Um jeito de começar a se aproximar das histórias é cuidar da sua própria. Quer experimentar?

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"ÁRVORE DA VIDA.

 

Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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