• Emilie Andrade

México, meu amor!

Updated: Feb 19, 2019


É engraçado o amor.

Cheguei no México no dia 05 de novembro de 2018 morrendo de fome. A comida era motivo de ansiedade: faz tempo que a comida mexicana é uma das minhas favoritas e queria saber se o que eu comia aqui (e adorava) era realmente mexicano. Não era! Comi no aeroporto e peguei um táxi. Ainda me faltava uma viagem de mais de duas horas até Progreso de Obregón, a cidade no estado de Hidalgo onde eu ficaria pelos próximos 17 dias.


No carro, a caminho da rodoviária, eu olhava a rua e pensava (sentia, mais que pensava): que lugar familiar! Essa sensação insistiu durante toda a viagem e se juntou a outra que foi se tornando cada vez mais forte: os lugares falavam comigo. Os cheiros dentro dos mercados, Marte no céu, os sonhos, os desejos, o sol sempre a pino e de repente o frio de 1 grau, as pirâmides, as histórias contadas, as histórias ouvidas, as músicas, os olhares.


Deixa eu dar um exemplo mais concreto. Fomos a uma festa da cultura otomi. Nós, os estrangeiros, fomos convidados a contar uma história curta cada um. Tenho no meu repertório algumas histórias que caberiam naquela situação, mas só uma aparecia na minha cabeça. Eu não queria contá-la. Já tinha contado na noite anterior, queria experimentar outra coisa. Mas, não importava o quanto eu me esforçava para encontrar outra na minha memória, na minha cabeça só aparecia aquela. Não tinha opção, contei a danada. Mais tarde, um senhor me cutucou o ombro e disse: “obrigado por essa história que você contou, minha mãe a contava pra mim. ”


Sei que tudo está em transformação o tempo todo, mas muitas vezes, esqueço. Lá não esquecia.

Eu comecei esse texto falando do amor, de como ele é engraçado no sentido de inesperado ou inexplicável. Fui me enchendo de amor nessa viagem.

Um amor por gente que eu conheci pouco, mas intensamente: Jorge, Mario, Pancho, Flora, Amada, Luísa, Daniel, Oswaldo, Matías, Juan David, Szymon, Roberto, Maria. Meus companheiros de ofício e de luta, os que me convidaram para estar ali. Sei que não é o amor que tenho pelas minhas filhas, companheiro e amigos de muitos anos, mas é sim, também, amor. Delicado, doce e de admiração. É também um amor pelas memórias que a gente criou juntos nas alegrias e nas dificuldades. Acho bonito isso. Sinto beleza dentro, não sei direito como explicar.

Tem também o amor pelo México, essa terra tão mágica, tão potente, que percebi tão minha. Amor pelos lugares, pela história, pela comida, pela arte, pela terra mesmo.


E tem um amor-a-flor-da-pele pelo meu ofício. Esse presente que me faz cada vez maior, que me enche de ganas de existir e agir, um amor pelo gesto de ouvir e contar uma história.

E, talvez, por essa capacidade tão grande de amar, o maior amor que senti nessa viagem foi por mim. Lá, vivi 18 dias em um ritual de iniciação na madureza da minha existência. De um conforto profundo de existir na minha pele. De ser eu, mulher, com a idade que tenho, do tamanho que tenho, no fazer das coisas que faço, com as faltas e com os saberes.

Nesse rito de passagem, ainda ali, entendi que fui ao México para morrer. Voltei vestida de outra carne porque lá eu escolhi morrer. E renascer.

Agradeço a todos com os quais compartilhei uma escuta, um olhar, um segundo.


Agradeço ao meu grande amigo Jorge Antônio pelo convite e pela insistência no amor.


Agradeço à Flora Ovalles, pelo poema que me deu de presente sem querer e que, por fim, se tornou a síntese dessa viagem.


"Sea cual fuere mi destino, yo vivo y no quiero morir de muerte sino de vida pura."


Ludovico Silva

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