• Emilie Andrade

Festival de Histórias no Irã (parte 2)


Minha apresentação ia ser a primeira depois da pausa para o almoço no último dia do festival. Um evento que acontece há dezessete anos no Irã e que reúne narradores de diversos países. No dia anterior, pela manhã, eu e a Azam, minha tradutora, tínhamos experimentado contar a história juntas numa escola. Foi bom. Não foi ótimo. Não engasgamos, mas foi um tanto sem ritmo, sem graça, especialmente a segunda parte (é uma história que se desenvolve por repetição em três partes). As crianças se mostraram satisfeitas, mas para a apresentação no teatro precisávamos melhorar.

As pessoas comentavam sobre suas expectativas em ouvir minha história. Minoo, a responsável pela minha ida ao Irã, estava nervosa e me perguntava a toda hora sobre a história. Entendi que as performances no teatro eram muito importantes e esperadas. Por isso, eu e Azam, minha querida tradutora que nunca havia subido em um palco, estávamos nervosas.

Depois do almoço, como todos os dias, o ônibus veio buscar a todos para irmos ao teatro. Quando chegamos, qual não foi minha surpresa ao ver que o mestre de cerimônias já estava no palco cantando e eu abriria o período da tarde. Estávamos atrasadas! Eu e Azam corremos, me troquei rapidamente e não tive tempo de respirar ou me alongar um pouco.

Todas as mulheres no Irã, mesmo as estrangeiras, devem usar um tecido cobrindo os cabelos: o hijab. Com a pressa, consegui encontrar apenas um grampo na minha bolsa, mesmo tendo colocado mais de vinte lá dentro. Coloquei um grampo no lenço azul que me deram de presente e corri.

Enquanto eu esperava o técnico acertar os microfones, ainda na coxia, uma sensação amorosa e de agradecimento tomou o lugar do nervosismo. Entrei no palco muito feliz por poder estar ali. O teatro tem aproximadamente duzentos lugares e estava lotado. O público era formado pelos outros narradores estrangeiros e iranianos, um grupo escolar de cerca de sessenta meninas de aproximadamente dez anos de idade e o público em geral formado por adultos e crianças de todas as idades.

Assim que comecei a narrar, meu lenço começou a escorregar. Minha atenção se dividia entre contar a história no meu inglês enferrujado, cuidar para não falar trechos muito longos, esperar a tradução, manusear o pequeno instrumento de madeira que eu usei para contar a história e não deixar o lenço cair. Uma situação nada familiar. Muitas coisas para dar conta. Além disso, na última hora, havia decidido contar a segunda parte, aquela que estava sem ritmo, através de gestos e de algumas palavras em português. Azam traduzia para o persa os gestos que já conhecia da história e não as palavras porque ela não fala português. Impressionante como o corpo todo muda quando falamos o nosso idioma. Contar em inglês é estrangeiro no corpo, contar em português traz o corpo de volta para casa.

Até que em um determinado momento, coloquei a mão na cabeça e o lenço não estava lá. Sim, eu infringi uma lei do Irã no palco na frente de duzentas pessoas! Parei a história, sorri, pedi desculpas, fui até uma pequena mesa que estava no palco e apoiei o instrumento porque precisava das duas mãos para arrumar o tecido. Nas primeiras filas estavam as meninas da escola: ‘Está bom assim? Se cair novamente vocês podem me avisar?’ – perguntei a elas. Azam traduziu e as elas responderam que sim com a cabeça. Retornei ao centro enquanto era aplaudida. Confesso que por um segundo pensei em fingir que não tinha acontecido nada, arrumar o lenço e continuar a história. O que me fez mudar de ideia?

Ao final, aquela tinha sido a melhor das vezes em que contamos juntas a história da Princesa Jia. Saímos do palco, abracei Azam e disse: ’Você viu? Meu lenço caiu!’ Ela sorriu e respondeu: ‘Foi deus quem quis. Assim, você pôde se conectar com seus ouvintes’.






fotos: Amir Jahanpour

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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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