• Emilie Andrade

Estórias de Luzia Teresa

Naquela mulher, já chegada à velhice, mais ossos que carne, sisuda, sossegada, era impossível imaginar a força interior da narradora de memória privilegiada a guardar exemplares os mais expressivos da literatura oral de seu povo.
O ato de narrar a transmudava. Perdia a quietude natural, erguia os braços longos de mãos descarnadas em gestos definitivos a acentuarem a dramaticidade da narração. A voz tomava acentos diversos, cada personagem distinguido pela carga emocional da cena descrita.
Durante três anos vi-a narrar sus estórias, alguma, acredito, de sua criação; em todas, o guardado do povo nordestino, paraibano, repassadas por uma sensibilidade e formação religiosa bastante características. A experiência significou uma descoberta extraordinária para a minha compreensão do sentir e pensar da gente simples. A sua doação ao guardado e transmitido ficou-me indelevelmente retido. Ao trabalhar os seus contos e divulgá-los move-me a certeza da grandiosidade da narradora.
Trecho de Canção para Luzia Teresa de Altimar Pimentel

Conheci a Luzia através dos livros que o professor Altimar Pimentel publicou. Alguém me indicou e eu comprei o primeiro. Não demorou muito, comprei os outros dois.

Não saía da minha cabeça o fato de “ninguém” conhecer a Luzia. A mulher tinha um repertório gigante. Ler os livros com as histórias dela, era como ler um livro do Câmara Cascudo: um compendio de contos populares do Brasil. Só que diferente do nosso folclorista, era ela mesma, sozinha que contava de memória, todos os contos.

Como que pode uma mulher desse tamanho ser tão pouco conhecida? Fico pensando quantas Luzias ainda temos e que ainda nem descobrimos...


Luzia Teresa não sabia ler nem escrever, trabalhou na roça quando criança e como empregada doméstica quando crescida. Era paraibana, nascida em 15 de março de 1909 na cidade de Guarabira. A mãe faleceu quando ela tinha oito anos e, assim, assumiu a responsabilidade de ajudar o pai a criar os irmãos menores. Por isso, não tinha muito tempo de ser criança. Numa entrevista à equipe da UFPB conta que “o pai arrumava uma enxadinha desse tamaninho para a gente ajudar a limpar o mato, aprender a limpar mato até a gente ficar grande”. Se casou aos 25 anos com um senhor que era bem mais velho, viúvo, com quatro filhos. Disse que ele lhe ensinou muitas de suas estórias. Teve apenas um filho, que foi viver em São Paulo e nunca mas deu notícias.


Quando ficou internada, antes de falecer em 1983, contava histórias para os doentes do hospital. Inclusive, a última história gravada foi narrada lá, três meses antes de morrer. Na ocasião, disse que ainda tinha muitas histórias para contar.


Entre 1977 e 1983 Luzia Teresa gravou contos populares para o projeto “Jornada de Contadores de Estórias da Paraíba” desenvolvido pela Universidade Federal da Paraíba, através do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular coordenado por Altimar Pimentel, também responsável pela organização e publicação dos três volumes com contos por ela narrados.


Luzia narrou 242 contos e, por isso, foi considerada por estudiosos como a maior narradora do mundo. Se tem notícia, por exemplo, de um narrador israelense que contou “mais de duzentas histórias” mas, além do número ser impreciso, não se tem registro de seus contos como existe do repertório de Luzia Teresa.


Luzia passa à história do folclore como sujeito receptivo e ativo. Não é uma gravação o que se escuta quando ela narra. É a voz dos séculos sedimentada no coração e na alma desta mulher excepcional que pôde reter as palavras que a oralidade lhe ia transmitindo, dia a dia, com fadas boas e más, príncipes e aventureiros, reis e pajens, cavaleiros e escudeiros, bons e maus, perversos e generosos, formosos e horríveis, diabólicos e santos.

Felix Coluccio

(Escritor, estudioso da cultura popular latino-americana, foi diretor do Fondo Nacional de Las Artes da Argentina e secretário geral da Comissión Internacional Permanente de Folklore.)


Tornar a história de Luzia Teresa, assim como suas estórias, mais conhecida se tornou a minha meta maior. Levar a Luzia para o Brasil e para o mundo é levar junto os saberes, a cultura, a arte, a oralidade e a memória do povo brasileiro.


Mas, por que eu? Me perguntei (às vezes, ainda me pergunto) se cabia a mim essa tarefa. Não conheço a Paraíba. Não conheço a Teresa nem a família da Teresa nem ninguém que conheceu a Teresa. Mas a Teresa, ou talvez, a história da Teresa, me chama. E eu quero ir. Quero abrir essa porta e descobrir que eco é esse que lá de longe chegou até mim. Quero viajar pra esse "lá longe" pra, talvez, encontrar onde é que a história da Teresa encosta na minha. É preciso saber olhar porque deve ser um "eu" muito distante no tempo e no espaço. Será? Será que lá na Paraíba, encontrando a história da Teresa, eu acabe esbarrando num “eu” bem profundo, tão profundo que nem eu mesma conhecia?


É aí que você entra nessa história e me ajuda a fazer essa viagem.


Criei uma campanha de financiamento coletivo e a partir de R$10,00 você pode contribuir.


A partir dessa viagem de consulta às gravações lá na Universidade Federal da Paraíba, vou criar um espetáculo chamado “Estórias de Luzia Teresa” pra contar suas estórias e sua história de vida. Depois, quero levar o espetáculo para o Brasil e para o mundo. Vamo junto?


Entra lá na página da campanha onde está tudo explicadinho e, por favor, compartilha. Espalhar essa história é tão importante quanto contribuir financeiramente. Qualquer contribuição é imensa.


Agradeço pra sempre!




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@emiliehistorias

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