• Emilie Andrade

Encontramento #9 - Débora Kikuti


Tem um tipo de gente que parece que tem um imã e a gente vai sendo atraído por uma força invisível. Foi assim com a Débora Kikuti. De repente, a energia boa que existia de ficar vendo de longe, me deu a coragem de convidá-la e a gente se encontrou nessa entrevista no Parque da Água Branca. Parecia que a gente já tinha conversado antes, que já era pra ser junto, pra ser encontro. Claro, que depois desse primeiro, outros encontros vieram. Esse tipo de gente que tem imã tem também um tear, no caso da Débora, uma roca. Depois que a gente encontra, sabe que a partir de então cada um fica segurando a ponta de uma linha, no caso da gente, um fio de lã cardada. Cada uma segurando uma ponta que, não importa o tamanho, sabe que tem a outra na outra ponta em algum lugar. É uma conexão delicada que a vida vai ajudando a tecer. Agradeço demais por poder aprender tanto com ela. Sei que vocês também vão.


Me conta alguma história-memória da sua infância que te conecta com seu trabalho como contadora de histórias?

Engraçado. Há uns vinte anos, quando eu comecei profissionalmente digamos, eu botava no currículo que foi a minha avó que me iniciou. Eu lembro até hoje que uma contratante me disse assim: não dá pra você mudar isso? Não dá pra você colocar sua formação em teatro, por exemplo? Seria interessante. Porque quem faz isso é atriz, né? E eu até brinquei de fazer teatro, mas eu não me encontrei lá. Eu sou muito indisciplinada, não gostei. Por que eu estou falando isso? Porque naquele momento ficou claro pra mim como essa questão era importante na minha vida. Alí ficou claro que eu precisava dizer, eu precisava afirmar isso para o mundo e pra mim.

Minha avó era da roça, caipira mesmo e ela fez da casa da gente uma casa do interior, mesmo a gente morando em Arthur Alvim, um bairro aqui na Zona Leste de São Paulo. Mas, quem chegava em casa dizia que estava no interior. A casa ficava no meio do terreno, tinha um jardim, tinha aqueles corredores laterais forrados de plantas e no fundo uma grande horta que a gente tirava um bocado de coisa. A minha avó sempre contou histórias porque isso era da formação dela, da família dela. Essa coisa de contar histórias da própria vida sempre foi muito importante na minha família, jamais saíamos da mesa logo depois do almoço, principalmente, as mulheres. Ficávamos escutando as nossas histórias, as histórias da família.

Minha avó sempre foi uma grande contadora de histórias e pra tudo ela tinha uma história. Até pra dar bronca. Por exemplo, ela não proibia a gente de tomar chuva e brincar na enxurrada, mas ela contava de um boi que tinha sumido na tempestade ou de um cara que tinha morrido com um raio no meio do cocuruto (a Débora conta mais da avó dela aqui). A gente ficava assustadíssimo e não saía mais na enxurrada. Ela tinha medo de caco de vidro, xixi de rato, essas coisas. Sempre assim, nesse lugar, nesse tempo do imaginário. Ela jamais teve noção disso, fez parte da vida dela e fez parte da minha também. Ela percebeu que eu gostava mais de histórias do que os outros. Eu percebia o corpo, o tempo, a atmosfera que ela estabelecia e eu sabia que lá vinha uma história. Minha avó era filha de italiano, tinha olhos azuis bem grandes e uma verruga na ponta do nariz. Eu sempre achei que ela era uma bruxa. Sempre! E isso me encantava, então eu prestava muita atenção no que ela falava. A gente discutia muito, duas pessoas com personalidades fortes e duas contadoras de histórias. Eu sempre perguntava muito, era muito curiosa acerca das histórias e ela nunca explicava, ela dizia é assim!

As histórias que ela contava não eram histórias de “era uma vez”. Minha avó nunca começou uma história assim, nem nunca terminou com nenhum daqueles jeitos conhecidos, mas a gente sempre sabia quando a história ia começar e quando ia terminar. Eu digo que a minha avó me ensinou a gostar de gente, de plantas e de bicho e aí, óbvio que eu ia gostar de histórias. Por exemplo, todo bicho que alguém queria ter lá em casa podia ter, contanto que cuidasse. Ela não colocava a mão no bicho. Eu acredito que isso foi fortalecendo meu caminho e a minha imaginação povoada de todos esses lugares. Quando eu cuidava de um bicho eu lembrava de uma história que ela tinha contado, dava nomes pra eles. Eu tinha um casal de jabutis, a Cremilda e o Bonifácio, eles tinham uma história de amor. Eu tinha pintinhos, um papagaio e um pássaro preto. A minha avó me disse que eu tinha que plantar o girassol pra dar de comer para o papagaio. Eu plantei o girassol, esperei ele crescer, acompanhei o girassol procurando o sol, tirei os bichinhos que comiam a planta. Tudo isso além de ir à escola, ajudar em casa, cuidar dos bichos. Cuidar desse girassol era mágico pra mim. Eu sempre volto para esse lugar quando eu preciso me fortalecer, para o ego não me vencer, eu volto pra lá. Onde o acontecimento cotidiano já era mágico.


As crianças para as quais a gente conta histórias hoje não têm tantas oportunidades de encontrar esse lugar mágico, silencioso, solitário no bom sentido. Você pensa sobre isso? O que isso reflete no seu trabalho?

Eu penso nessa atmosfera simbólica que precisa ser criada, se não há espaço você precisa criá-lo simbolicamente. Por exemplo, ano passado eu trabalhei com um grupo de crianças e eu não era contratada para contar histórias propriamente, mas as narrativas estavam presentes. A narrativa aconteceu porque elas me perguntaram quantos anos eu tinha e porque eu pintava meu cabelo de roxo. Aí eu disse que eu tinha 392 anos e que o meu cabelo é roxo porque quando eu sonho vou pra um lugar onde tudo é roxo. As pessoas são roxas, as árvores são roxas, a água é roxa, tudo é roxo. Quando eu acordo, meu cabelo está roxo. Aí elas diziam, então, eu vou sonhar que meu cabelo é azul! E eu respondia: Não, você precisa esperar. Primeiro, vocês precisam se transformar em adultos e então, sonhar. Essa linguagem simbólica, que eu uso muito quando conto histórias, estabelece esses momentos de silêncio, essa atmosfera que falamos.

Como a sua história como contadora de histórias começou profissionalmente?

Eu tinha muita necessidade de contar histórias e ia em creches, orfanatos, mas eu sempre quis contar histórias para adultos. Por que essa ideia que só criança precisa ou pode escutar histórias? Nunca concordei muito com isso. Então, eu fui no Mobral e foi muito legal! As pessoas não só escutavam como também me contavam as suas histórias. Foi tão rico que eu comecei a pensar na possibilidade de fazer isso profissionalmente. Mas, imagina, isso foi há quase 25 anos! Eu tinha uma filha pequena, como faria para pagar aluguel, contas... Então, eu comecei assim, dando conta de uma questão minha lá no Mobral.

Eu trabalhava em um sindicato. Saí de lá e fui trabalhar como assessora de um vereador. Saí também. Já estava querendo sair da militância política que é um lugar precioso, mas que te exige muito. Eu já estava meio sufocada, então, saí sem ter nada, coisa nenhuma! Eu precisava sair, fazer o que eu amava, precisava dar sentido pra minha vida. Eu comecei mesmo profissionalmente, ganhando dinheiro, contando histórias em livrarias, para editoras, bienal de livro. Eu sou uma pessoa de muita sorte mesmo, eu sei disso. Acho que o caminho era pra ser esse mesmo porque eu comecei a ser muito contratada por livrarias e editoras. Imagina, logo no começo o MEC me contratou pra contar histórias no stand deles na Bienal. No começo foi difícil porque eu ganhava pouco, mas eu tive muita ajuda da minha família, compreensão da minha filha amada e não me arrependo, nem um segundo.



Se você tivesse que eleger apenas uma característica pra um bom contador de histórias, qual seria? E uma que não se pode ter?

Com o mesmo peso: Ser um bom escutador de histórias e de jeito nenhum, ser literal. Por exemplo, contar a história do urso e mostrar um ursinho de pelúcia pra ilustrar. As pessoas precisam ter a liberdade de imaginar a história narrada, de acordo com a descrição que você faz mais o repertório imagético que ela tem. Eu posso ver o urso de um jeito que é diferente do seu e essa é a riqueza. A história é suficiente.

Me conta sobre seu trabalho em hospitais.

Eu comecei indo pra rua, há dez anos atrás. Tem dois lugares que eu amo contar histórias: a rua e o hospital. Na rua porque é um desafio sempre, trocar, conhecer gente. Mas, ainda assim, não era só esse lugar. Aí eu comecei a procurar hospitais. Comecei procurando algumas organizações, tentei até trabalhar com elas, mas elas são muito presas aos livros, à mediação de leitura e não era isso que eu queria fazer. Eu não posso ter nada na mão quando eu estou contando, nem microfone, nem nada. Neta de italiana, imagina! Além disso, me incomodava um pouco o jeito que as pessoas falavam nesses lugares porque era sempre voluntário com um tom religioso. Tipo, vamos salvar aquela alma perdida. Era um negócio meio estranho. Então, eu tentei ir a alguns lugares em Guarulhos, o lugar onde eu moro, contar histórias sem ganhar nada e nunca me deixaram. Até que eu encontrei a ONG que eu trabalho hoje. Eu já tinha a experiência de hospital, mas de uma forma ainda muito superficial, eu acho. O primeiro hospital que eu peguei foi o hospital municipal de urgência lá de Guarulhos e eu fazia as áreas clínica, cirúrgica, ortopédica, com pacientes adultos. Pois é, ó que ironia: fui trabalhar em hospitais de Guarulhos que me ofereci como voluntária, pela associação que eu trabalho e sendo paga!

Eu lembro que quando eu disse pra minha mãe que ia trabalhar em hospital ela disse imagina, você tem problema com hospital, nem consegue entrar pra ser tratada, você chora, você não vai conseguir, mas eu disse que ia experimentar. Quando eu cheguei lá, descobri que era um lugar que eu precisava estar. As pessoas não esperam que você esteja lá, é sempre uma surpresa. Não necessariamente você vai começar contando uma história. Muitas vezes, você vai escutar uma história e talvez a sua escuta traga alguma história sensível para aquele momento. Eu jamais sei que história eu vou contar e isso me encanta! É a interação com as pessoas que diz qual é a melhor história para aquele momento. Por isso, eu preciso estar segura e preparada: estudo e amplio o meu repertório sempre. Eu não sei a história que eu vou contar, ninguém sabe que eu vou estar lá, não tem público me esperando, olha que lindo! Tudo vai acontecer ao acaso e eu amo o acaso.

Esse trabalho me faz pensar também na minha conexão espiritual, que não é religiosa. Eu acredito na essência, na evolução espiritual, na ancestralidade. Eu nunca estou sozinha quando eu conto uma história. Cada um dá o nome que quer de acordo com suas crenças, mas eu estou com a minha essência e com minha ancestralidade e elas me amparam e me inspiram. Foi assim que eu aprendi a trabalhar com a minha intuição e no hospital é o meu repertório junto com essa questão espiritual - com a ancestralidade e a minha intuição - que fazem o jogo acontecer.

De repente, eu estava lá contando histórias para uma pessoa que estava entubada e, às vezes, inconsciente. Nessas situações, o outro não consegue te dar um retorno, se ele está gostando ou não. Nessas horas, estou contando a história para o espírito que anima o corpo físico. É o espírito que escuta histórias. Independente da nacionalidade, da crença, do momento em que ele está. Essa experiência no hospital foi decisiva para o meu trabalho e para fortalecer ainda mais minha confiança na intuição e nas histórias como possibilidade de autocura. Eu busco melhorar o repertório cada dia mais, busco melhorar meu desempenho para esse lugar.


Como você se prepara para contar uma história?

Cada história é um jeito. Por exemplo, uma vez eu precisava contar numa livraria uma história que chamava Pepedro no caminho das Índias. Um livro que não conhecia. Eu também nunca fui pra Índia. Pra mim é muito pouco só pegar o texto e ler. Assim não consigo, eu preciso me embrenhar na atmosfera, preciso estar recheada dela. Então, o que eu fiz? Acendi um incenso, coloquei uma música indiana, coloquei uns lenços no sofá, deitei e fiquei um tempo só sentindo. Em algum momento, peguei o livro e fui ler o texto. Eu gosto de contar essa experiência porque depois que eu contei a história, veio uma mulher falar comigo e ela disse: ai Débora que legal, adorei, mas quando você foi pra Índia? Eu comecei a rir, falei que nunca tinha ido e já ia mudar de assunto, mas a moça ficou visivelmente surpresa, chamou a filha e disse a Débora disse que nunca foi pra Índia! A filha também ficou muito surpresa e começaram a falar de um lugar assim assado que eu tinha falado... Enfim, elas tinham vivido na Índia muito tempo e a mulher disse que quando eu estava contando ela sentiu os cheiros, ela foi parar naquele lugar. Invariavelmente, as pessoas vão porque eu vou junto.

Não tenho um método, não tem uma regra, uma receita pronta. De acordo com a história eu vou pra lugares, eu vejo imagens, sinto cheiros, experimento coisas, além do texto que pode ser escrito e pode ser oral. Tem muita história que eu conto que eu escutei e aí transcrevi. Eu chamo de uma experiência encantada. Só ler não basta, a história escapa e não é a palavra sozinha, é o sentido. Eu preciso ser atravessada pela experiência da história e se eu só leio o texto, ela não me atravessa. Só assim eu posso me olhar e me conhecer. Quem é essa pessoa que está contando essa história agora? O que ela está precisando? O que ela precisa fazer? Pra onde ela precisa ir? Como se fosse uma outra pessoa olhando pra mim e verificando. Esse é um exercício que eu acho muito legal.

Qual história conta mais sobre você hoje?

Tem uma história que eu acho que é a história da minha vida porque ela faz sentido sempre e eu a carrego comigo. Eu conheci essa história em 1990, tem a idade da minha filha, que é A mulher esqueleto. Tínhamos um grupo de mulheres amigas que lia e contava histórias do livro Mulheres que correm com os lobos da Clarissa Pinkola Estés, enquanto criávamos nossos filhos. Essa história fala de vida-morte-vida. No livro ela coloca muito a questão dos relacionamentos. Vida-morte-vida pra mim é essa coisa de você estar animada com a vida, mas acontece uma decepção ou uma pedra no sapato, uma dificuldade. E aí tem a reanimação. Meu amor/companheiro fala uma coisa legal: que no fundo do poço tem água fresca. Como eu acho que tudo é cíclico, eu sempre penso nessa história. Arquetipicamente a gente precisa revisitar essa questão vida-morte-vida, ainda mais nesses tempos tão difíceis que a gente anda vivendo.





fotos: Xica Lima

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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