• Emilie Andrade

Encontramento #8 - Clara Haddad


Foi num sábado à tarde que decidi, finalmente, ouvir essa moça que há tempos eu acompanhava por essas terras da internet. Cheguei cedo e quando as histórias vieram, trouxeram o som e o cheiro da chuva. Foi tão bonito! Naquela mesma semana, me dei conta de que já era passada a hora de retomar meu projeto de entrevistas, o Encontramentos, então, usei a minha boa e velha cara-de-pau e escrevei um e-mail. Ela respondeu com todo carinho e no sábado seguinte marcamos nossa conversa. Nesse dia, cheguei atrasada. As histórias já haviam sido convocadas. A porta já estava aberta e a menina Clara dançava lá dentro das palavras.

O nome Clara significa “cheia de luz”, eu sei disso porque é o nome que eu escolhi para minha filha. Essa menina Clara, essa que conta histórias pelo mundo, brasileira de origem libanesa e que mora em Portugal, é realmente uma menina de muita, mas muita luz e sabe que a nossa sorte é a gente mesmo quem faz. Agradeço muito a conversa, Clara.

As fotos são da querida Xica Lima, parceira nova nesses encontros.


Como a sua história como contadora de histórias começou?

Desde pequena mesmo! Muita gente fala, mas no meu caso é realmente um fato. Eu tinha uma avó que contava histórias e eu sempre contei. Quando criança, a minha avó era minha Sherazade. Ela, às vezes, contava histórias enormes por capítulos e eu ficava super curiosa esperando a continuação. A minha avó veio do Líbano para o Brasil, então, a maioria das histórias que ela contava era desse universo árabe. Eu cresci ouvindo isso. Sempre fiz um monte de coisas: teatro, dança, pintura, porque a minha família priorizava este tipo de ensino através da arte. Fui crescendo e me formei em educação física, mas a arte e o teatro sempre fizeram parte da minha vida. Depois, fui fazer artes cênicas e nesse período fiquei sabendo de um festival de contadores de histórias. Eu não tinha ideia de que existiam pessoas que contavam histórias profissionalmente, na minha cabeça era um ato familiar e muito ligado a minha avó. Então, fiquei curiosa e fui ver. Na época eu trabalhava com produção de teatro e fazia teatro como atriz. Em um intervalo entre uma viagem e outra fui ver este festival e quando vi fiquei parada e pensei: “isso é o que a minha avó faz!”. Eu comecei a chorar compulsivamente e entendi que era aquilo que eu queria. Mas como eu vou fazer? Eu sou atriz, eu decoro os textos, eu não me sentia capaz de fazer aquilo. Então, eu saí com um monte de minhocas na cabeça. Eu só ouvi uma história porque não podia ficar durante o festival inteiro. Comecei a pesquisar, comecei a contar e aos poucos fui parando com as outras atividades. Profissionalmente, eu comecei a contar em 1999, até então eu não me assumia de fato como contadora de histórias, eu me dividia entre atriz e narradora. Quando eu decidi que eu só ia trabalhar com isso, eu tive essa necessidade de pesquisar, de entender o que é e como é essa linguagem. Eu não me sentia capaz. Achava que por mais que eu tivesse aquilo da minha avó e de crescer vendo, ouvindo, sentindo as histórias, não era suficiente. Porque no teatro a gente cresce muito enquanto artista pensando em técnica: como que eu vou colocar a voz, o corpo? Como é que eu me movimento? Qual a técnica pra eu me apropriar de uma personagem? Se eu fosse fazer isso com histórias, sentia que não ia dar certo. Comecei a contar, a ler e me joguei! Comecei a circular por livrarias. Na época, não era como agora, tinha muito pouco, eu não sabia de outros contadores. Passado um tempo, eu continuava determinada e queria focar só no conto, mas ainda fazia algumas coisas de produção porque eu precisava viver. E, numa dessas, fui ver a possibilidade de levar uma peça para Portugal. Fui apenas à Lisboa e só da segunda vez que fui conhecer o Porto. Foi em 2004 e quando eu conheci o Porto eu falei: eu quero morar aqui! Sabe aquele encantamento total com a cidade? Lá é um lugar que parece de conto de fadas. Os prédios antigos, as casas, tudo! Fiquei apaixonada. Nessa época eu já estava começando a dar alguns cursos. Comecei com amigos, gente do teatro, amigos que tinham interesse pelas histórias aqui no Brasil. Eu não abria cursos pagos porque eu ainda estava me descobrindo enquanto contadora. Foi uma experiência muito boa porque me obrigava a pesquisar ainda mais. Voltei de Portugal, mas fiquei com aquela sementinha da ideia de voltar. Em agosto de 2005 voltei de fato para a cidade do Porto, decidi ir, não tenho família lá. Fui e, desde então, vivo lá. Venho para o Brasil uma vez por ano.

Desde quando eu comecei a contar, uma coisa não saía da minha cabeça: como eu tive muita dificuldade de encontrar material eu pensava que precisava existir um espaço dedicado às histórias, mas, eu ainda estava muito “verde” pra ter um espaço – não posso fazer isso ainda – eu pensava. Como eu já estava dando cursos no Brasil antes de ir para Portugal, decidi dar cursos lá também. Em 2006, eu comecei fazendo cursos em vários formatos: de fim de semana, intensivo, etc. para ver como as pessoas entendiam aquilo, porque até então eu também não conhecia os narradores de lá. Eu sabia que existiam os narradores tradicionais nas aldeias e sabia que existiam pessoas que trabalhavam com mediação de leitura que não é a mesma coisa que a narração de histórias. Fui buscar essas pessoas. Até que eu descobri um festival lá e acabei contando sem querer. Eu escrevi para a pessoa responsável pelo festival e disse que estava em Portugal e que queria conhecer, ver como que é. Quando eu cheguei lá foi muito legal porque eu peguei o programa e vi meu nome. Como assim? Clara Haddad às 11 horas na tenda dos contos! Ah sou eu! Bom, vamos lá! Fui e contei e desde então não parei mais.

Em 2007 já estava na Espanha trabalhando, mas nessa altura também não conhecia bem os profissionais de lá. Segui dando cursos até que em 2008 eu fiz uma parceria com uma livraria chamada Salta Folhinhas no Porto. Eu queria fixar um centro de contadores de histórias onde as pessoas soubessem que ali haveria cursos e contos para adultos, para crianças, para todo mundo. Ainda não tinha um nome de escola e eu fui fazendo vários desses eventos. Em 2010, comecei a circular por Coimbra, Lisboa e quando eu vi tudo estava muito grande. O meu sonho era realidade mesmo, as pessoas buscavam aquele espaço como um centro de referência de narração no norte de Portugal. Foi muito legal, porque sou brasileira e de repente eu era uma “referência portuguesa”. Tanto que lá muitos amigos e alunos brincam, falam que eu já sou portuguesa. Em Portugal eu floresci e por isso tenho um carinho muito especial por aquela terra. Realmente, foi lá que o meu sonho se desenvolveu e também a minha escola. Tenho mais de mil alunos que já passaram por lá. Não só gente de Portugal, mas gente que vai do Brasil, da Itália, da Espanha, gente que vai buscar o que a escola propõe. Não tem uma técnica da Escola de Narração Itinerante – porque eu acredito na narração como uma arte livre e que cada narrador tem a sua forma de narrar. Não tem uma receita de bolo. Se você gosta de contar lendas, você vai contar lendas, se você prefere o público infantil, vai por ali.

É preciso respeitar-se. O contador de histórias não precisa ser tudo, ele tem que ser o que ele é, para poder se alimentar. A história alimenta: ele e o público.


Qual característica um contador de histórias precisa ter?

Disponibilidade e humildade. Se você chega se achando o máximo, “em cima do salto”, você vai cair, porque a arte narrativa é humana, é proximidade, é toque, é comunhão. Você não pode se achar uma estrela, você é o veículo da história, você é uma tela para a história acontecer. A história é porosa, ela tem espaço para respirar, ela não é rígida como no teatro onde você tem uma luz, um som, uma deixa para dar para o seu colega. Na narração não, você acabou de ver como é. É tão espontâneo: de repente uma criança fala comigo e me abraça no meio da história e isso não me incomoda. Para alguns narradores isso é o fim do mundo, isso atrapalha o trabalho. Mas, eu acredito que não atrapalha porque a arte narrativa é humana, é proximidade, é o olho no olho, é o toque, é o sorriso, é a partilha através da palavra. O que eu acredito é que existem várias formas de narrar. Através da música, da dança, você pode contar com o seu corpo, dançar uma história, você pode cantar uma história. Agora a forma e o respeito com que você faz isso é que vai diferenciar o contador. Então, o grande lance pra mim é a disponibilidade, você precisa estar disponível para o outro, você não pode estar fechado em uma ideia. Se você está fechado, não permite que a história seja uma ponte entre você e o seu público. Você tem que estar aberto e disponível à tudo.


Você lembra de algum momento, alguma coisa que aconteceu enquanto você estava narrando que gerou uma mudança? Algum encontro que fez você repensar o seu modo de narrar?

Ai tenho tantas histórias! Tem coisas assim que dá vontade de chorar só de ver o público, a emoção que as pessoas ficam. Teve uma vez, foi a minha primeira viagem internacional, fui pra Venezuela e eu não falava bem o espanhol. Me convidaram para esse festival, eu disse que contava em português e eles disseram que tudo bem. Quando eu cheguei, não era nada tranquilo porque eles queriam em espanhol! Foi muito importante uma postura que eu tive e que eu levo para minha vida profissional. Da gente não desrespeitar quem somos e como nos sentimos. Eu estava dividindo o palco com uma narradora venezuelana e antes de entrar no palco eu falei pra ela: eu vou contar em português porque é o que eu sinto no meu coração. Quando eu entrei eram 700 crianças, eu contei em português e aquelas crianças estavam comigo. Foi muito emocionante porque eu vi que não era o idioma, mas sim a forma como você se entrega para o seu público. Quando eu terminei, as crianças todas desceram correndo e dizendo “conta em brasileiro”! Depois, à noite quando eu contei para o público adulto, eu também contei em português e foi muito forte porque eu percebi que não é o idioma, mas como você se entrega e como as pessoas se conectam contigo.

Outra situação foi quando eu fui para o Peru. Era época do dia dos mortos, dia de finados. Lá é muito forte esse dia, como no México. Eu fui fazer uma sessão lá. Estava em Cuzco, passando muito mal com a altitude, terminei o conto e fui embora correndo porque eu “estava verde”, me sentindo realmente muito mal. Nessa sessão eu contei uma história chamada Jack e a morte, porque havia a demanda deste tema. Resumindo: era um homem que vivia com a mãe em uma aldeia e ela começou a ficar doente. Para proteger a mãe, ele resolveu procurar a morte para prendê-la dentro de uma garrafa. Ele encontra a morte porque ela está indo em direção ao lugar onde eles vivem. Quando ele vê aquela figura toda de preto chegando na aldeia, ele fica assustado porque sabe que a Morte está indo buscar sua mãe. Então, Jack começa a desafiar a morte até que consegue prende-la dentro da garrafa. Ele volta para casa e a mãe está recuperada e diz que está com fome. Jack, então, vai buscar carne no açougue e quando chega lá o açougueiro está desesperado porque como nenhum bicho morre mais, ele não tem mais carne para vender. As pessoas começam a passar fome, mas ninguém morre. Quando ele volta para casa, a mãe desconfia e pergunta se ele está envolvido nessa situação. O homem conta sobre a morte presa na garrafa e sua mãe o convence a soltá-la dizendo que esse é o ciclo da vida. Ele respira fundo, abre a garrafa e a morte sai de lá lentamente e diz: agora você compreende que eu não sou inimiga da vida?

Depois que eu contei essa história, uma mulher veio falar comigo e disse que tinha perdido a mãe e que estava muito emocionada com a história. Para mim foi muito especial essa noite.


E como ouvinte? Uma memória especial como ouvinte?

Com o Hassane Kouyaté. A primeira vez que eu o ouvi foi em 2006 no SESC Pinheiros e fiquei impressionada com ele. A forma como ele contava e a história que ele contou. Eu já tinha ouvido a história da lebre e do baobá, mas nunca tinha ouvido da forma como ele contou. Tudo me remeteu aos momentos de quando eu comecei. Eu tenho uma ligação forte com o universo africano. Aquela única história que eu ouvi naquele primeiro festival, foi contada por um narrador africano.

Qual a história mais conta você hoje?

Essa que eu contei hoje do homem sem sorte é muito forte, porque eu não quero ser um “homem sem sorte”. Eu quero saber olhar as oportunidades e não deixa-las passar. Isso é uma coisa que eu tento trazer para minha vida: aproveitar tudo para não deixar passar e não ser devorada pelo lobo.


#ClaraHaddad #entrevista #Portugal

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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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