• Emilie Andrade

Encontramento #7 - Mônica Roberta (Narradores de Passagem)


Finalmente, o primeiro Encontramento de 2013!!! Este projeto, iniciado em 2011, me deixa muito feliz porque me permite encontrar e aprender com pessoas que trabalham no universo da narração de histórias. Espero que ele possa trazer um pouco dessas coisas também para quem lê.

A primeira conversa do ano foi com a contadora de histórias Mônica Roberta do Instituto Narradores de Passagem. Essa moça tem uma voz doce e marcante e quando fala do projeto fica nítida a paixão pelo que faz. Ela é formada em Letras, é atriz, arte-educadora e multiplicadora do Instituto. Mônica trabalha na formação dos narradores-voluntários e continua indo à campo (como ela mesma diz) contar histórias aos pacientes. Para quem não conhece o trabalho dos Narradores de Passagem, vale a pena fazer uma visita ao site deles. Quem sabe o Instituto não recebe novos narradores-voluntários? Dessa vez, o papo foi tão bom que eu esqueci de fotografar, acreditam?! Por isso, tive que roubar umas fotos do Facebook dela. Conversamos no meio da reforma sede do Instituto, enquanto Mônica pintava um móvel. Obrigada, Mônica!


Como a sua história como contadora de histórias começou? Começou junto com o “Narradores de Passagem”?

Começou junto, sim. Eu sou atriz e, então, a gente quando é ator faz várias coisas pra viver. Conta histórias, faz peças, faz teatro de bonecos, faz tudo relacionado à arte. Eu entrei nesse negócio de histórias mais pelo mercado mesmo, para poder sobreviver. Era o campo que tinha para trabalhar,na época as livrarias estavam contratando. Mas, eu não vou falar que era algo que eu gostava muito porque quando você vai contar histórias em uma livraria você é mais um promoter do livro do que um contador de histórias. Primeiro que você não pode contar a história inteira, senão as pessoas não compram o livro. O seu trabalho depende muito do retorno disso e isso era muito chato de fazer. Eu não estava fazendo arte, eu não estava contando histórias, eu estava fazendo a promoção de um produto. Nessa época, eu estava muito desanimada com o teatro, mas já fazia faculdade de artes cênicas. Já tinha passado pela Escola Livre, já tinha tido algumas experiências bacanas com teatro experimental que era uma coisa muito bacana, mas que não dava dinheiro. E eu pensava: como você faz uma pesquisa na área artística, tendo que se dedicar a algum outro trabalho para se manter? Qual a diferença entre ser promoter de livros ou ser operadora de telemarketing? Eu não via muita diferença. Ah, mas trabalhando nas livrarias eu estou, sim, fazendo algo próximo da área artística… Mas, eu achava que fazendo isso, eu estava jogando contra. Eu estava estimulando as pessoas a gostarem cada vez menos de histórias porque aquilo era muito ruim. Por tudo isso eu estava muito desanimada e sem objetivo.

Nesse período o meu pai adoeceu e eu saí do trabalho que eu estava, que não tinha nada a ver com arte, porque ele precisava de alguém pra ficar com ele no hospital. Meu pai tinha um câncer numa situação terminal e foi um choque muito grande porque a gente pensava que ele tinha uma pneumonia. Nesse tempo que eu fiquei com ele no hospital, que não foi muito, eu comecei a perceber a forma que as pessoas lidavam com a questão da terminalidade e me deu vontade de fazer alguma coisa em hospital. Alguma coisa na área de humanização e arte, mas eu não sabia o quê. Não tinha ideia. Isso foi em 2004.

E aí meu pai faleceu, eu comecei a fazer um trabalho com vídeo documentário. Estava ainda buscando sem saber o que ia fazer. Até que apareceu um projeto na Escola Livre de Teatro coordenado pelo Abreu (Luis Alberto de Abreu). Eu já tinha feito um trabalho com ele quando eu cursei a Escola Livre, já sabia do artista que ele é, da consciência que ele tem. Quando eu vi o programa do projeto estava escrito: “Narrativas de Passagem”. Eu não entendi direito, mas decidi ir e ver o que era. Quando a gente chegou, o Abreu falou que a pesquisa era escrever narrativas que tratassem de passagens, mas que o objetivo principal era buscar narradores, narradores contemporâneos. Então, quando começamos a escolher qual passagem, quais histórias que a gente ia se dedicar primeiro, o Abreu pediu pra que cada um trouxesse um relato pessoal marcante relacionado a alguma passagem. Coincidentemente, a maioria trouxe depoimentos sobre a morte. Então, começamos com essa, que parece ser a passagem mais traumática. Todo mundo ficou um pouco apreensivo no início por ter de escrever histórias que falavam sobre a morte. E para qual público? Pensamos, então, no público de hospital que está cada vez mais sozinho.

A gente ficou o ano de 2005 inteiro escrevendo essas histórias, e, até então ir para o hospital contar essas histórias ficou só na nossa imaginação.O grupo era muito grande e a maioria era de escritores. O Abreu é um chamariz muito grande para trabalhos com a escrita. Em 2006, o Abreu reforçou que o objetivo do projeto era para narradores e até estabeleceu uma regra: a gente podia apenas narrar, mas não podia apenas escrever, ou seja, todo mundo ia ter que narrar. A maioria das pessoas não estava querendo ir ao hospital, então, eu e uma amiga escrevemos um projeto junto com o coordenador da escola e com o Abreu para levarmos aos hospitais. Colocamos o projeto debaixo do braço e fomos bater nas portas. Nenhum hospital aceitou o nosso trabalho. Eles até queriam trabalho voluntário, mas queriam que a gente fizesse aquilo que eles queriam. Então, a gente começou em casas de repouso e foi muito importante essa época pra mim. As pessoas de mais idade têm muita história pra contar, eles são narradores natos, então, eu fazia teste mesmo! Por exemplo, uma coisa que acontece muito quando a gente está contando histórias são as interferências, principalmente, em hospitais. Você está no meio da história entra a enfermeira pra fazer um procedimento. Então, quando os idosos estavam contando as histórias eu ficava interferindo, falava coisas no meio da história deles só pra ver o que eles faziam. E eu comecei, literalmente, a imitá-los. Eu aprendi muito no asilo. No começo eu não conseguia narrar, eu apenas sentava e ouvia as histórias deles.

Até que um casal do grupo, que já tinha feito um trabalho com os Doutores da Alegria, nos apresentou um hospital no qual eles tinham muita abertura, mas que eles não podiam ir por conta de tempo. Era um hospital longe, quase em Guarulhos, mas eu pensei que se era lá que estavam abrindo as portas, era lá que a gente tinha que começar.

Chegamos lá, fomos apresentados para a médica, ela gostou muito e topou. Começamos eu e uma amiga. No começo a gente ficou achando que ia ser muito difícil, o ambiente hospitalar, aquela coisa. Mas, a gente viu que as pessoas são tão comuns quanto a gente e que o trabalho fazia muito bem pra nós, talvez até mais do que para os pacientes. Muda sua postura, muda sua atitude. E aí, acho que os médicos de lá começaram a comentar sobre o nosso trabalho e outros hospitais começaram a entrar em contato. Fomos crescendo, precisamos abrir vagas para mais voluntários e até hoje a gente tem uma lista de espera muito grande. E foi assim, sabe aquele trabalho que quando você faz você diz é isso, encontrei! Logo eu que estava tão perdida com essa questão de fazer arte, quando eu ia ao hospital a coisa acontecia da forma mais pura artisticamente. A pessoa parava pra te ouvir não porque a campainha do teatro tocava, mas porque aquilo estava interessante de se ouvir, porque se não estava eles não paravam para escutar. Aí, eu fui trabalhar com teatro dois anos em um navio, contei histórias lá, aprendi italiano traduzindo as histórias dos Narradores para poder contar. Eu fui para juntar dinheiro e institucionalizar esse trabalho.


O que é uma história de passagem?

Essa pergunta você tem que fazer para o Abreu, mas, o que eu posso te dizer é que o que a gente chama de narrativa é o relato de uma experiência. A gente se atem àquela passagem. Entendemos passagem como situação de crise, uma crise que gera uma mudança na pessoa. Antes era de um jeito e depois daquela experiência as coisas passaram a ser de outro. Quando você narra, essa mudança ocorre também com você e com seu ouvinte, o que a gente quer é fazer essa passagem juntos. Por exemplo, tem uma história que a gente conta que faz uma analogia da mulher mastectomizada com uma guerreira amazona. Se eu contar pra você, você vai dizer nossa que lindo. Todo mundo gosta dessa história. Mas, seu eu contar num grupo de mulheres que está enfrentando ou que já enfrentou isso, a história ganha outra dimensão. Eu falo para os voluntários que em um mês eles vão poder narrar em campo, mas isso não quer dizer que eles estão prontos. Eu estou fazendo isso há cinco anos e também não estou, estamos nos fazendo. Mas, é importante estar com os ouvidos abertos para pegar o que o seu ouvinte te traz para poder devolver. É um treino. Às vezes, também acontece que a gente se pega contando as mesmas histórias. Quando eu não estou muito bem eu vou naquela porque eu sei que funciona. Claro, você gosta mais de umas histórias e não gosta tanto de outras. Mas, a gente vai contar só histórias que a gente gosta? E se aquela que eu não gosto é a que aquela pessoa está precisando ouvir? Às vezes, também eu sinto que eu conto a história que eu preciso ouvir. Porque no hospital a gente se depara com situações difíceis e é a gente que precisa se acalmar, entendeu? Então, às vezes, você conta a história pra você mesma.

Outra coisa, é que a história no papel é uma coisa e quando você vai contar é outra. Tanto que a gente passou por uma mudança no processo de trabalho. O Abreu percebeu que as pessoas estavam mais decorando do que visualizando as imagens das histórias e que não era esse o caminho. A gente passou a fazer o aprendizado das histórias oralmente.

Qual a sua maior dificuldade e o seu maior prazer no trabalho?

Antigamente, como eu vim do teatro, eu pegava a história e decorava. Na minha cabeça era assim, muito simples. Acho que hoje eu aprendi que a forma de estudo é diferente, e principalmente, a relação na hora de contar é diferente. Antes o meu maior receio era esquecer a história, ou sei lá, a pessoa chorar no meio da história que eu estou contando. Com o tempo eu fui vendo que não tinha problema a pessoa chorar. A gente pensava que se a pessoa chorasse a gente estava fazendo ela ficar triste, mas, não necessariamente, né? Hoje a minha maior dificuldade é manter as histórias, porque a gente tem uma gama de histórias. Como fazer essa manutenção? A parte de ir a campo e contar as histórias é a parte mais fácil e mais gostosa. Agora, a manutenção, o estudo… Hoje, como monitora dos voluntários, penso em como auxiliá-los nesse trabalho. A ideia aqui é buscar o narrador de cada um, então, é muito difícil porque não existe um modelo.

São várias questões, viu! Por exemplo, a questão do ego. O voluntário escuta muito: nossa que trabalho lindo, como você é lindo! Não que ele não seja, mas como perceber que você é apenas um instrumento que está levando a história.

Como trabalhar essa questão? E também comigo mesma, claro! Outra coisa que me pega muito é essa coisa da articulação. Porque no teatro, por mais difícil que seja de fazer, ainda sim existe uma comunicação, existem os grupos, existem algumas experiências compartilhadas e na contação não. Eu acho um trabalho muito solitário, um estudo só seu, é difícil de trocar. É um campo que ainda não está articulado. Por isso, isso que você está fazendo é muito válido, é uma maneira de trocar. Mesmo em festivais fica difícil porque são muitas pessoas. Tudo que é com muita gente você não consegue focar. Acaba sendo mais uma vitrine e não tem continuidade. Mesmo aqui é difícil, a gente é um grupo menor, mas cada um vem com seus interesses. Eu tenho muita vontade de trocar.

O que um contador de histórias precisa ter?

Eu acho que se a pessoa não tem ouvidos não dá pra ser narrador. Não é que você tem que ser perfeito, mas é preciso entender que aqui nós não contamos histórias apenas. A gente conta histórias, mas não é só isso. Às vezes, chegam voluntários que contam histórias maravilhosamente, mas que não conseguem controlar os seus movimentos, e então, não dá pra colocar essa pessoa dentro de um hospital de imediato. Se você trabalha dentro de uma UTI, você tem que saber o tamanho do seu braço. Por isso, a gente faz muito um trabalho de consciência corporal. Por se tratar de um trabalho voluntário, vêm pessoas de todos os lugares e não tem problema, o que não dá é a pessoa chegar ao hospital e, ao invés de contar histórias, falar dos problemas dela. Se eu não estiver bem, como eu vou contar uma história? Se eu não me respeitar, como eu vou respeitar o outro? Agora, tem muita gente que vem pela questão do status: Ah, eu faço trabalho voluntário! Ah, eu estou no grupo do Abreu! E, às vezes, nem a pessoa sabe que ela veio por causa disso. Demora para as pessoas saberem o que elas estão fazendo aqui. Hoje em dia, tem um lugar que eu conto histórias que eu acho muito mais fácil. É um setor de transplantes. Eu digo que lá é mais fácil porque as pessoas lá já estão com outros ouvidos, eles já conhecem o tipo de história que eu conto, então, eu nem preciso mais perguntar, eu chego lá e eles estão me esperando. É bacana, mas acaba ficando fácil. Eu sinto falta daquela coisinha que dá antes de entrar no quarto, será que a pessoa vai querer ouvir…

E quando a pessoa não quer ouvir?

Cada um tem o seu jeito, mas a gente acha que é importante a pessoa falar o não. Por mais que a gente ache que a história vai fazer bem pra pessoa, é importante a pessoa dizer o não. Eles não podem dizer não pra tanta coisa dentro do hospital. Mas, às vezes, eu nem pergunto nada. A gente está numa conversa boa que está fluindo e eu entendo que a pessoa já me autorizou a falar com ela, inclusive contar uma história.

Eu acredito que as histórias que a gente conta, contam um pedacinho da gente. Qual história você acha que mais conta você hoje?

Eu gosto muito das histórias do Malba Tahan e quando eu vou para algum lugar que eu tenho a possibilidade de contar o que eu quero, eu conto Malba Tahan. Adoro os contos dos irmãos Grimm. Adoro essas coisas. Aqui nos narradores quando a gente começou, a gente tinha uma história. Eu fiquei um ano trabalhando com uma história que eu gostava muito. Na verdade, eram duas. Uma para adultos, que era essa que eu contava, e outra era infantil. Mas, essa história, que se chama Linha da vida, por ter sido a primeira… a primeira história a gente nunca esquece, né? Essa história era aquela que eu sempre contava porque sempre agradava. Essa história sempre foi o meu porto-seguro. Até que um dia, eu fui contar essa história e pareceu que ela tinha perdido aquele tchan. Aí eu pensei: mas também faz tempo que eu não conto…

Mesmo quando eu não gosto muito, eu conto porque eu descubro com os pacientes os sentidos que elas têm. Independente disso, a história tem que ser

olhada com todo carinho e respeito, não é a minha performance que importa.

#entrevista #NarradoresdePassagem #MônicaRoberta

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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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