• Emilie Andrade

Encontramento #6 - Haydeé Arteaga



Haydeé Arteaga é a narradora mais antiga de Cuba. Formou gerações de narradores e atores cubanos, muitos, inclusive, vindos de regiões marginais do país. Aos 97 anos, Haydeé – que foi a diretora fundadora da Cátedra Cubana de Narración Oral do Ministério da Cultura – continua ativa, narrando, escrevendo, promovendo encontros. Fui encontrar-me com ela no Hogar de Protección a los Adultos de la Tercera Edad onde vive. Quando abriu a porta de seu apartamento, fiquei nervosa, achei sua expressão muito séria. Ela puxou as cadeiras sem dizer palavra e me pediu para sentar. Começou me mostrando os inúmeros prêmios e homenagens que tem nas paredes do seu quarto. Logo que começamos a conversar, quando agradeci e disse que estava nervosa por encontrá-la, ela riu muito e percebi sua enorme simpatia. La Señora de los Cuentos, como é conhecida não apenas em seu país, me contou o que quis, eu de vez em quando soltava uma pergunta ou outra. Conversamos um pouco mais de uma hora apenas, eu tinha um compromisso do festival do qual estava participando logo em seguida. Segue a representação da conversa que tivemos, espero não ter traído as palavras de Haydeé.

Como a sua história como contadora de histórias começou?

Eu teria que dizer que eu comecei na barriga da minha mãe. A minha avó, Teresita, do mesmo modo que cantava canções de ninar pra mim ainda no berço, também narrava contos. Eu nasci no centro de Cuba em um povoado chamado Sagua La Grande e aos cinco anos a minha família se mudou para Havana. Por isso eu sou filha ilustre de Sagua La Grande e filha adotiva de Havana. E a minha avó me contava histórias que a sua mãe, que era porto riquenha, havia escutado de sua mãe, histórias que vinham de muito tempo atrás e a minha avó me contava. Eu comecei a contar aos quatro anos. Em todos os países existem lendas, mitos, tradições e aqui há o mito do Guije. Guije é um personagem mitológico que vive nos rios e é muito mal porque leva as crianças à noite. Quando não há lua nem estrelas ele aparece e assusta as pessoas. Minha avó começou a me contar essa história e esse foi o primeiro conto que narrei. Eu narrava contos e mamãe me ensinava os melhores poetas, eu também era recitadora. Eu narrava na minha casa e na escola, mas a primeira atividade pública aconteceu quando fazia apenas três semanas que havia mudado para Havana. Fizeram um parque bonito e eu fui à inauguração representando a escola, e lá fiz minha primeira apresentação pública. Faltavam dois meses para eu completar cinco anos. Vim para Havana e continuei sempre contando, nunca deixei de contar. Conto contos de autores, contos tradicionais, contos que eu escrevo. Toda a vida poderia dizer que contei histórias. Agora mesmo eu completo este ano 72 anos trabalhando com arte e cultura. Foi no ano de 1935 que comecei a trabalhar com crianças. Muitas das crianças com as quais trabalhei hoje são professores ou artistas. Mas as crianças não são nem escritores nem são artistas, as crianças brincam com a arte e a cultura e quando chega o momento cada qual é o que é. Qual tem sido meu objetivo durante todo este tempo? Integrar. Que leiam um livro e possam apreciar, que vejam uma obra de teatro e possam apreciar, uma música, enfim, que tenham essa base. Porque a vida é como uma prosa, então, os poucos momentos que temos que aprendamos a desfrutar. Toda uma vida de narrar contos e sigo narrando, mas fiz muitas coisas. Fui diretora da única escola de narração oral da América Latina, sou aposentada do Ministério da Cultura. Eu fiz tudo isso! Trabalhei com crianças, faço teatro, tenho prêmios de teatro, sempre trabalhando com arte, com literatura, contos. Ciência não! (risos) Tenho uma casa sede que é a Casa de La Obra Pia que é uma casa colonial muito bonita, que está passando por obras de restauração. Todos os meses, dou atividades na Biblioteca Provincial Eliseo Diego Villena na Calle Obispo. Ali dou, no segundo sábado de cada mês, uma atividade para adultos, onde os adultos se reúnem e narramos contos, temos convidados especiais. É como uma grande família. Agora tudo estão chamando de peña, mas para mim é um encontro entre amigos. E no terceiro sábado ocorrem as atividades com as crianças. Como te disse comecei a trabalhar com crianças em 1935 e nos anos 80, Eusébio Leal, o historiador responsável pela restauração de Havana Velha, me pediu para fazer em Havana Velha um trabalho com crianças, começamos com cinco crianças e há 32 anos surgiu o grupo Haydeé y los niños.


Como a senhora guarda as suas histórias, o seu repertório?

Há muitas formas, mas eu não os guardo assim. Eu tenho, por exemplo, os meus livros. Tenho um livro, chamado Namach que foi ilustrado apenas por crianças… (Haydeé se levanta e se põe a procurar o livro, porque quer me mostrar os desenhos das crianças. Até que finalmente o encontra). Este livro foi publicado primeiro na República Dominicana e nesta edição uma professora de Artes Plásticas foi convidada para orientar as crianças que fizeram as ilustrações. (Neste momento, falamos muito sobre o livro, sobre as publicações em outros países…)

Qual característica um narrador tem que ter?

Primeiramente, ele tem que gostar de contos. Porque narrar contos é uma arte! Ele tem que ser capaz de ser todos os personagens desses contos, com todas as vozes, com todas as coisas. A verdadeira narração é a narração oral que eu chamo de pura. É aquela narração que não precisa de cenografia, de luz, nem nada. Se narra em qualquer lugar. Eu, por exemplo, uma manhã estava na região oriental da ilha, sentada numa pedra quase no meio de um rio, sem sapatos contando contos e as pessoas que moravam por ali escutando. Eu tenho que ser capaz de dar o som, a imagem do que estou contando, cada personagem como é, se eu não sou capaz de dar tudo isso, eu não sou nada. Tenho que deixar de ser eu para ser todos os personagens. Há uma diferença! Hoje há algo que chamam de narração oral cênica, porque Francisco Garçon, dramaturgo e poeta que foi meu aluno, teve a ideia de levar o conto para a cena. Primeiro eu me assustei um pouco porque pensei que a narração se perderia e lhe disse que ele teria primeiro que ensinar o que era a narração e depois vinha o resto. Porque na narração oral cênica há quê estar vestido de tal forma, tem uma luz e já deixa de ser essa narração pura que eu estava te falando. Seja de uma forma seja de outra, se o narrador não é capaz de tudo isso, não pode ser.


E o que um narrador não pode ter?

Uma memória ruim. Se não é capaz de aprender algo de memória como vai narrar? Um conto de autor, por exemplo, há de se respeitar o autor. Eu posso fazer uma adaptação, o narrador sempre faz sua adaptação para poder narrar e para poder se situar, mas se faço uma versão é melhor fazer um conto meu.

Qual a história que a senhora mais gosta de contar?

Nenhuma. Porque cada conto que eu escolho, foi um conto que eu gostei. Em Madrid que me colocaram o nome de Señora de los Cuentos. Há contos que ao longo do tempo as pessoas foram pedindo muito e eu os repito. Há contos que eu mando dormir, porque quando você faz muito tempo uma coisa já não pode criar e narrar é uma forma de criação. Você cria o conto ao contá-lo. Eu gosto de contar os meus contos. Agora fizeram dois filmes de desenhos animados com dois dos meus contos. Adaptaram contos meus para o teatro. Em muitos países da América Latina se narra muitos contos meus. Me mandaram um disco do México onde narradoras mexicanas narram coisas minhas. Durante muito tempo viajei por muitos países contando contos. Agora mesmo acabo de chegar do México. Eu já tinha decidido que não ia mais viajar, porque já tenho muita idade e tenho um problema de catarata que não posso operar e quando chega à noite não enxergo muito bem. Até que me convenceram a ir ao México onde me aconteceu algo lindo, muito lindo. O mais peculiar deste evento é que o teatro onde a homenagem iria acontecer tem mil lugares e dois meses antes de eu ir, os ingressos já estavam esgotados. Eles me pediram para mandar fotos e eu mandei algumas, uma de quando eu era pequena, uma outra de quando eu tinha 18 anos. Mandei, mas ainda estava decidida a não ir. Eles lá fizeram uma divulgação e então, todos queriam ver a senhora de 97 anos que conta contos e que está velhinha. Até que me convenceram a ir! Como eu te falei era um teatro de mil lugares e mesmo assim muitas pessoas ficaram de fora porque já não havia espaço. Isso foi uma emoção! Era um palco imenso, muito grande e me deu medo que as luzes machucassem os meus olhos. Eu fiquei parada no meio do palco e foram abrindo as cortinas. Eles esperavam, depois na entrevista com os jornalistas eu me dei conta, ver uma velhinha com uma bengalinha, cheia de rugas e quiçá vestida com uma blusinha e uma saia de velhinha, mas o que aconteceu foi que quando a luz me iluminou eu estava parada elegantemente vestida (risos). Colocaram isso até no jornal e eu disse que trocassem: señora de los cuentos por senhora elegantemente vestida (risos). Isso é uma coisa muito cômica (mais risos)! Mas, quando eu apareci assim no palco pensei: aqui não esta Haydeé, aqui está Cuba! Eu contei meus contos em pé, tranquilamente, com todos os personagens. Foi muito lindo! Não sei como explicar para você. Fazia como que três anos que eu tinha decidido que não iria mais viajar, não posso mais viajar. Eu digo que foi minha última viagem, já não quero mais sair, mas foi uma viagem linda de recordações. Foi uma viagem para reencontrar-me e saber que ainda estou viva. Não sei quanto ainda vou durar, mas não me importa (risos). Você sabe que quando você chega à vida te fazem assinar um papelzinho com a entrada e a saída (mais risos).


Muito obrigada Haydeé. Infelizmente, preciso ir. Tenho um compromisso do Festival…

Obrigada você. Temos muitos problemas, muitas privações, mas Cuba está sempre com suas mãos abertas, lutando pela vida e ainda ninguém conseguiu nos derrubar. São bem vindos todos que querem vir e estar conosco. Temos que, entre tanta desinformação que existe sobre nós, dizer que depois da revolução já aconteceu muita coisa e que aqui há um povo com valores e que luta sempre.

#entrevista #HaydeéArteaga #contadoradehistórias

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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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