• Emilie Andrade

Encontramento #4 - Vivian Catenacci


O primeiro ano da série Encontramentos termina. Estou muito feliz com os encontros que esse projeto, que gosto tanto, permitiu realizar. A última conversa do ano foi com Vivian Catenacci. Uma contadora de histórias e pesquisadora muito experiente, que começou a contar histórias aos dezoito anos. Agradeço a ela e a sua linda família que me receberam tão carinhosamente em sua casa, a conversa que ecoou profundamente em mim e o almoço que, infelizmente, não pude experimentar. Obrigada a Vivian, ao Luciano e ao pequeno Miguel.


A primeira pergunta que têm permanecido em todos os encontros é: Como a sua história como contadora de histórias começou? Eu acredito, de verdade, que sou contadora de histórias porque sou neta de uma contadora de histórias. Minha mãe me contava muitas histórias também, mas quando aprendi a ler ela disse que eu poderia dar conta das histórias sozinha. Minha avó nunca desistiu de ser a minha contadora de histórias. O quintal dela era tudo e a gente podia tudo lá! Depois do almoço ela levava meu irmão e eu pra cama dela, nós deitávamos e ali ela contava histórias. Essa experiência ficou muito forte pra mim… Já adolescente, pela manhã eu fazia magistério e à noite fazia um curso de coreografia. Quando me formei nesses dois cursos, a primeira proposta de trabalho foi de uma escola. Eu ensinava tudo, tudo, tudo contando histórias. Em tudo eu colocava uma história. Até que chegou um dia que eu pensei: O que eu mais gosto de fazer é contar histórias, então vou contar histórias! Até que conheci o narrador Giba Pedrosa, eu já era aluna de Ciências Sociais na PUC, encantada pela cultura popular brasileira. Eu fazia parte de um grupo de pesquisa e fui pesquisar contos. Conhecendo o Giba eu descobri que narrar poderia ser uma profissão. Eu tinha dezoito anos. Pedi demissão da escola e quando fui me despedir de uma das freiras do colégio, ela falou assim: Ai que bom, porque você parecia um passarinho dentro de uma gaiola. Voa! E eu voei! Fui contar histórias em escolas, que eram o meu universo e não parei mais. Não tenho formação como atriz, eu sou contadora de histórias porque sou neta de contadora de histórias e queria proporcionar a mesma coisa que eu sentia quando a minha avó contava histórias pra mim.

Você sente alguma falta dessa formação em teatro? Algumas vezes eu me aproximei, fiz alguns cursos, mas eu sou contadora de histórias e acho que pra você contar histórias, de verdade, pra você estar inteiro ali, você precisa ser você e pra eu ser eu, preciso escolher histórias que pedem pra serem contadas, histórias que falam sobre mim também. Como contadora de histórias eu não sinto falta!

Sua formação são as ciências sociais. Como a cientista social aparece na contadora de histórias? Eu estudei as culturas populares. No TCC eu problematizei a questão do folclore. O que o conceito de folclore carrega? E, entrando em contato com os folcloristas, entrei em contato com um repertório muito grande de contos tradicionais brasileiros de raízes diferentes. Eu acho que a cientista social aparece mais em relação à formação de um repertório, da consciência que eu tenho quando pesquiso uma história e suas origens. Quando vou buscar contos tradicionais de outras culturas a atenção que eu tenho para a tradução, o cuidado quando vou fazer uma adaptação, vêm dessa formação. O mestrado eu fiz em antropologia (O voo dos pássaros: uma reflexão sobre o lugar do contador de histórias na contemporaneidade – PUCSP). O estudo da cultura me interessa muito, como contadora de histórias eu sou também uma pesquisadora da cultura brasileira. A cientista social me ajuda como formadora também. Quando me convidam pra dar cursos sobre contação de histórias (e eu gosto dessa palavra, contação, apesar de não existir em nenhum dicionário, acho que ela é muito gostosa de dizer e define muito bem o trabalho do contador de histórias, que é esse contar junto) a cientista social aparece muito forte. Eu tenho amor pelos conceitos, acredito que o conceito ajuda a pensar. Essa formação me ajuda muito na reflexão sobre a prática, na pesquisa e nos momentos de formação, mais do que na performance em si. Quando estou lá contando histórias é muito mais a Vivian neta da contadora de histórias do que a cientista social.

Você pode me contar um pouco sobre o trabalho do grupo “Mulheres tecelãs”? Na verdade minha história com grupo é bem curiosa e anterior ao grupo Mulheres Tecelãs. Quando o Giba saiu do Grupo Girasonhos, os dois músicos (Léo e Fernando Boi) que fundaram o grupo com ele, me convidaram pra ser a contadora de histórias do grupo e foi uma experiência muito rica. Eu não tinha DRT, porque antes disso eu contava histórias em espaços que não exigiam tê-lo, mas quando entrei no grupo essa necessidade apareceu. Então, fui tirar o registro, mas com meu portfólio de contadora de histórias. Eu pensei: não vou fazer um curso técnico em teatro pra ser contadora de histórias, isso seria uma grande contradição, eu preciso ser coerente com o que eu acredito que é a contação de histórias. Mesmo que eu não conseguisse o DRT num primeiro momento, eu poderia levar adiante uma reflexão sobre o motivo de contadores de histórias precisarem de registros de ator para trabalhar. Então, montei uma pasta enorme com tudo que tinha feito naqueles oito anos. Com o Girasonhos comecei a me apresentar muito em SESCs e experimentei algo que eu nunca tinha experimentado: ser pautada por um programador. Essa foi uma experiência muito importante pra eu me profissionalizar como contadora de histórias. Era uma época que não tinha tantos contadores de histórias. Não tinha tanta migração de atores para a contação de histórias (e eu acredito que isso reflete muito a situação do teatro hoje nas grandes cidades, a verba existente pra essa linguagem, o tempo disponível para montagem. Se eu fosse atriz, eu acho que problematizaria isso…) Eu era pautada tanto por quem contratava o Girasonhos, como pelo grupo, que já tinha um repertório. Experimentei ali outra coisa que eu nunca tinha experimentado: ensaiar pra contar histórias. Eu busquei um limite pra isso. Dizia para os meninos: não adianta vocês esperarem uma “deixa” muito clara porque eu não consigo. A gente começou a se perceber cada vez mais. E claro, as histórias que contávamos com mais frequência eram mais gostosas, mais redondas… mas tinha vezes que a gente pesquisava histórias, montava espetáculos, ensaiava pra apresentar apenas uma vez. Depois passavam seis meses ou um ano, pra que alguém visse em nosso portfólio aquele espetáculo e o solicitasse de novo. Até que chegou um momento, depois do Miguel (meu filho foi um divisor de águas na minha vida), que comecei a perceber que queria ter um repertório mais meu, que eu tinha me afastado disso. Como trabalhava muito com o Girasonhos (a gente viajava muito) conheci muita gente, muitas pessoas conheceram meu trabalho. Foi ótimo! Mas eu sentia que o grupo agora estava virando uma gaiola de novo, aí foi a hora de me despedir… Antes dessa despedida, quando eu estava começando a sentir essa gaiola que eu acreditava existir pelo formato do grupo, por conta de ter tantos espetáculos, tantas ofertas (num final de semana chegamos a fazer três ou quatro espetáculos com histórias diferentes)… Então, um pouco antes de perceber isso, eu conheci uma musicista, Lara César, uma cantora muito talentosa. Eu falei pra ela do momento que eu estava e que gostaria de trabalhar com um tema específico: o feminino. Ela topou e eu comecei a pesquisar contos tradicionais que tratavam do feminino. Nós montamos um espetáculo chamado Tramas femininas. Ficamos de 2008 até agora lapidando o espetáculo para chegarmos num formato que nos agrada. Lara e eu nos apresentamos bastante esse ano (2011). Fomos selecionadas por um edital das Bibliotecas de São Paulo e fizemos dez ou mais apresentações. No Tramas eu estou como contadora de histórias, mas não é um espetáculo de contação de histórias, é um espetáculo que mistura linguagens (nesse aspecto, como o trabalho do Girasonhos).

Eu perguntei sobre o grupo pra perguntar sobre a dificuldade, ou facilidade, ou a preferência entre contar sozinha e contar com alguém. Seja um músico ou outro contador. É um pouco do que eu já fui te contando. Quando eu estou sozinha com o público eu chego para aquele encontro. Pra mim, contar histórias é a arte do encontro e eu acho tão complicado chegar com tudo pronto… Porque é como se eu estivesse traindo a essência da contação de histórias. Então, quando eu estou sozinha eu me permito chegar e perceber o público: se tem crianças muito pequenas ou mais velhas, se elas estão muito agitadas, sentir o espaço e como eu estou naquele momento. Se eu estou mais insegura começo com uma história que tenho mais familiaridade ou que está pedindo mais forte pra vir. Eu estou mais disponível pra esse encontro quando estou sozinha, estou mais inteira, em geral, me divirto mais. Talvez porque eu não tenha que parar porque vai entrar uma música ou porque o outro contador vai contar, eu posso curtir. Quando eu estou sozinha contando histórias, minha intenção é aproximar o máximo possível a experiência com os ouvintes, mesmo que eu não os conheça, daquilo que me fazia pedir pra minha avó contar histórias pra mim. Isso é, pra mim, a essência do que eu faço e é o que me fez escolher contar histórias. O grupo também tem coisa boa: você não chega sozinha e isso ajuda. Porque eu não estou na cama da minha avó, eu não estou em casa, eu não estou no meu território. Isso eu percebo: quando eu chego sozinha eu chego mais insegura, aí, o que eu preciso fazer? Já que eu não tenho intimidade com o ambiente eu preciso construir isso, eu percebo que eu me aproximo mais das pessoas, eu me aproprio mais do lugar. E quando eu chego com alguém, eu fico mais com a pessoa, eu me preparo com ela e o espaço fica como um espaço de estranhamento. Sozinha eu me familiarizo mais com o lugar. Mesmo se eu estou num palco eu tento transformar aquele palco na cama da minha avó. Por exemplo, eu não conto histórias com as luzes apagadas. Já aconteceu de chegar num teatro grande, cheio de crianças e tudo escuro. Eu entrei cantando, então, quando terminei de cantar, me apresentei e pedi para o iluminador acender as luzes. Eu não conto histórias para, eu conto histórias com. Eu preciso dos olhares. Eu preciso das reações, porque é isso que me alimenta. Eu não tenho nada decorado! Eu não decoro uma linha! Eu vou contando a história conforme as imagens vão aparecendo na minha cabeça. Claro, tem a estrutura da história que eu respeito pra não transformar a história em outra coisa. Agora, como essa estrutura vai sair da minha boca… as palavras… eu construo ali, e eu não construo sozinha. Isso eu tenho plena consciência, eu não construo sozinha, eu construo na relação com os meus ouvintes. É uma arte de co-autoria.


Como você escolhe suas histórias? Como eu escolho… Como eu fiquei muito tempo sendo pautada, perdi um pouquinho essa prática de escolher histórias. Depois que eu saí do Girasonhos, comecei a pensar em como iria escolher meu repertório. Algumas histórias que eu escolhi para o Girasonhos ficaram sendo minhas também, fazem parte do meu repertório. Mas, agora eu estou num momento em que não quero mais ser pautada, quero buscar histórias que de fato fazem sentido e eu estou percebendo que essas histórias que fazem sentido eu tenho que buscar na minha história. Por exemplo, ontem foi o encerramento de um curso que eu fiz noInstituto Brincante. Era uma apresentação coletiva e me pediram muito pra contar uma história. Eu pensei que se eu fosse contar uma história ali, só caberia contar uma história que a minha avó me contava: a história da Dona Baratinha. E olha que interessante, essa história foi uma das histórias que eu mais ouvi na minha vida e uma das histórias que eu menos contei. Parecia que a história não cabia na minha boca porque era uma história da minha avó. Todas as vezes que eu contava, ela não era minha, era da minha avó. É uma história que eu não tenho tanta segurança, profissionalmente, mas ali não era um espaço que estava como profissional. Era a história que estava vindo, porque a lembrança da minha avó veio algumas vezes durante o curso. Então, eu decidi que era aquela história que eu ia contar. E ontem essa história virou minha. Porque eu não tive a intenção de me aproximar do jeito que a minha vó me contava. Eu senti como uma prova de que esse é o caminho que eu tenho que trilhar. De buscar as histórias que fazem sentido pra minha vida.

E como você as guarda? Você escreve?

Eu não escrevo. Você sabe que eu já tentei, eu até pensava que seria muito mais fácil se eu escrevesse, eu teria assim um arquivo, quando eu precisasse de uma história era só dar uma olhada, mas não consegui. Com as Mulheres Tecelãs no espetáculo Tramas femininas é diferente, essas histórias eu escrevi. Eu tenho um roteiro, que recorro em situação de ensaio, mas depois que eu ensaiei não volto mais… daí fico com a experiência. Agora, quando eu conto sozinha, eu escolho a história. Mesmo quando me pedem um tema específico, eu penso em uma história que no momento faz sentido contar. Por elas fazerem sentido, elas já estão prontas. Por elas virem, elas já estão prontas. Eu até posso recorrer a minha fonte, mas eu não gosto de olhar muito pra ela. Eu vou descobrindo a melhor forma de contar a história, contando. Eu gravo a estrutura da história e quando a estrutura está clara, eu tenho toda a liberdade do mundo pra colocar em palavras, nos gestos, no olhar, no corpo, as imagens que eu tenho dessa história.


O que você acha que o contador de histórias precisa ter? E o que ele não pode ter? Eu acho que é vontade de contar a história e alguém com vontade de ouvir. E isso é, em essência, o que um contador de histórias de qualquer lugar do mundo, em qualquer situação, precisa ter. Não estou falando de um contador de histórias profissional. Eu sou uma contadora profissional, eu pago as minhas contas contando histórias, mas o que eu faço, em essência, é o que minha vó fazia. É essa a essência que qualquer contador de histórias precisa ter. Agora, o que o contador de histórias não pode ter… Eu acho que cada um conta histórias do jeito que pode. Mas, pra isso, não dá pra ele tentar ser outra pessoa, não dá para o contador se colocar no lugar de personagem enquanto conta. Se ele se colocar dessa forma, vira outra coisa. Não estou dizendo que assim é melhor ou pior, é uma questão estética. A prova disso veio na fala de uma criança: um dia eu terminei de contar, tinha contado quatro histórias e entre elas poesias, brincadeiras. No final, chegou uma menina de quatro anos e perguntou:Vivian, como cabe tudo isso de gente dentro de você? Pra mim não tem melhor definição do que é um contador de histórias.

Sua arte é um produto? Como você vende esse seu produto? Como você entende essa questão? Eu queria muito ter um produtor! Eu queria poder terceirizar essa parte. O modo como eu comecei a contar a histórias foi um modo que “saiu de casa”. Quando eu comecei a cobrar pra contar histórias foi muito estranho, eu não sabia como nem quanto cobrar. Eu comecei em escolas públicas, então, eu perguntava quanto eles podiam pagar. Eu nunca deixei criança de fora porque não pagou. Eu nunca deixei de fazer um trabalho que eu acreditava que faria diferença, por conta do dinheiro. Mas, eu já deixei de fazer um trabalho em lugares que eu percebia que não entendiam direito o que era o trabalho e que não queriam pagar o valor que eu cobrava. Pra mim, sim, é um produto, mas ele pode ser mais ou menos um produto dependendo de onde, como, quando, e pra quem. Eu não vou contar melhor ou pior a história se eu estou fazendo um trabalho por escolha, porque a pessoa não pode me pagar, ou se eu estou recebendo um valor que eu acho adequado. Uma coisa é contar numa escola pública, outra coisa é contar numa escola particular; uma coisa é contar num lugar que vai ganhar em cima do que eu estou fazendo, outra coisa é contar num espaço de arte; uma coisa é contar numa livraria grande, outra coisa é contar na livraria dos meus amigos… Sim, eu preciso desse cachê, mesmo porque eu invisto no meu trabalho, eu estou sempre comprando livros, viajando pra conhecer e ouvir novas histórias. O mestrado eu fiz nessa área e foi um investimento de tempo e dedicação. Eu tenho quase 15 anos contando histórias. O valor que eu cobro tem a ver com essa experiência, mas é sempre algo que eu converso.

Acredito que as histórias que escolhemos contam muito da gente. Qual história mais conta você hoje? Esse hoje é muito hoje mesmo: dia 28 de novembro às 11h45min. Então, hoje, é a história da Dona Baratinha. Ontem, naquela finalização de curso que eu contei, eu fiquei muito emocionada. Porque ontem seria aniversário da minha avó e eu não lembrava. Minha mãe que me lembrou depois. Ela estava lá com o Miguel e eu comecei com uma fórmula de introdução de história que eu gosto muito: eu vos passo essa história como a minha avó Liquinha me contou e hoje eu conto para o Miguel, meu filho. Eu não posso jurar que seja verdade, mas vocês sabem, tão bem quanto eu, que nada se parece tanto com a mentira quanto a verdade. Eu contei a minha história e quando terminei minha mãe olhou pra mim e falou: hoje seria o aniversário da sua avó. É por isso que eu conto histórias! Contar histórias me permite entrar em contato comigo o tempo todo e esse entrar em contato comigo é pensar no que me faz feliz. Lidar com as histórias, me ajuda a viver.


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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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