• Emilie Andrade

Encontramento #3 – Tathiana Pedroso


Tathiana Pedroso é uma parceira de anos, atriz talentosíssima e grande narradora. Em cada uma das respostas ela contou umas três histórias, pena não ter espaço para colocar todas aqui. Entrevistar contadores de histórias é muito bom por isso, eles não, simplesmente, respondem perguntas, eles contam histórias. Como minha máquina fotográfica pifou, esta foi a primeira conversa registrada em vídeo. Segue nossa conversa regada a baião de dois.


Como a sua história contando histórias começou?

Difícil hein! É difícil porque a gente sempre conta histórias e eu acho que eu sempre fui contadora de histórias. Eu lembro que quando chegava em casa eu gostava de contar o meu dia ou alguma coisa engraçada que tinha acontecido. Depois na faculdade que eu trabalhei com contos no meu TCC, fui atentando mais pra essas coisas. Assim, eu fui percebendo e relembrando também: como a minha avó que é da Ilha da Madeira e gosta de contar histórias e conta muito bem ou a moça que trabalhava na minha casa e tinha dias que ela nem trabalhava porque só ficava contando histórias da vida dela. Adoro a confusão que dá se é verdade ou mentira a história, essa fantasia, eu acho incrível! Um dia uma amiga que contava histórias precisou de alguém pra substituí-la e me convidou, mas como eu nunca tinha contado fui assistir antes pra poder ver como era. E quando eu fui assistir, pensei: nossa como é fácil contar histórias! E aí eu comecei e aprendi muito rápido. Primeiro na técnica dessa amiga e depois eu fui misturando as minhas coisas, as minhas vivências contando histórias e assim foi.

Quais os pontos de contato entre o seu trabalho como atriz e o de contadora de história? E quais os pontos divergentes? O que o meu trabalho como atriz e todos os estudos que eu fiz nessa área me ajudam pra contar história, e que eu acho que foi essencial, é a improvisação, o estar sempre aberta pra receber o que vem do público e transformar aquilo, colocar dentro da história de um jeito que não desande. Essa prontidão para a troca com o público é muito do trabalho de atriz. O que eu tive que aprender, que a minha experiência de atriz não me deu, foi justamente a lidar com isso. Porque no teatro existe um distanciamento, mesmo que o público esteja dentro do palco. As reações são mais ou menos previstas e as intervenções não mudam a história, a história já está fechada. Eu tive que aprender que contar história pra criança, ou até mesmo pra adulto, você tem que saber lidar com essa interferência e ao mesmo tempo articular isso muito rápido pra jogar com o público.

Eu lembro que uma vez a gente foi contar uma história que no começo a gente perguntava quais os ingredientes para uma boa história, como se fosse um bolo. E tinha um menino que levantou a mão e disse: cocô. Em um segundo fiquei pensando como assim cocô!? Será que encaixa na história? Será que faz bem? Freud? Piaget? Vigotski? Em um segundo você tem que pensar em tudo isso, pra decidir se acolhe o cocô ou se joga fora. Só que se jogar fora tem que ser de uma forma legal também, bonita, com o coração né!?

Não pode ser de qualquer forma. Eu lembro que nesse primeiro momento nós acolhemos esse cocô e o menino passou o resto da história querendo colocar coco em tudo! Até que eu tive um estalo, parei a história, e com a cumplicidade das crianças decidimos se esse monte de cocô deveria ou não entrar na história. Todos decidiram que não e o menino apenas respondeu: ah…

Você disse que já contou tanto pra adultos quanto pra crianças. Como é cada um desses públicos pra você? Você tem preferência? Eu já fiz um projeto no qual eu contava pra criança e duas horas depois contava pra adultos. Linguagens diferentes. Com a criança tinha esse frescor, elas participavam mais, viviam mais a história já com o adulto é outra relação. É uma relação mais formal porque o adulto tem uma pose que ele não vai abandonar. Mesmo porque as histórias que a gente escolhia eram mais pra adultos mesmo, como Clarice Lispector, Drummond. Me encanta os dois porque são linguagens diferentes: com a criança é aquele ritmo lá em cima, pique total, com o adulto você já pode ter as parábolas dos ritmos e você viaja nisso. Eu gosto muito de contar para os dois, mas eu gosto mais ainda de escolher uma história que é pra criança e que tem adulto junto. Uma vez eu contei uma história numa escola de educação infantil, mas que tinha muitos pais ali, e chegou uma hora que as crianças e os adultos não tinham mais diferenças no olhar. E isso é muito importante pro adulto também. Isso pra mim é muito legal!

O que você acha que um contador de histórias precisa ter? E o que ele não pode ter? Ele precisa ter felicidade. Quando ele vai contar uma história ele precisa estar feliz! Porque contar histórias é muito pessoal, é uma transparência muito grande, maior ainda do que no teatro. E o que não pode ter é preconceito, inclusive, de atores que começam a contar histórias. Uma vez encontrei um amigo que não via a muito tempo e ele me perguntou se eu estava fazendo teatro e eu disse que estava contando histórias. Ele respondeu: Não, mas e teatro? Peraí, mas quando você faz teatro você vai lá contar uma história! Tudo bem que é uma linguagem diferente, mas eu me considero atriz contando história. Tudo bem, o professor, o bibliotecário, o escritor também podem contar histórias, mas é outra abordagem. Eu acho que ouvir histórias e contar histórias é tão profundo, tão intenso, tão íntimo, que não pode ter preconceito, é necessário abrir o olhar. E acho também que o contador nunca pode subjugar a platéia porque nenhuma platéia é igual a outra. Você nunca pode ir pensando ah isso eu já sei! Uma vez eu tinha preparado uma história que era infanto-juvenil aí quando eu cheguei pra contar só tinha bebê na platéia, bebê e babá! Eu fiquei um pouco tensa e fui arrumar a minha mala, fiquei lá pensando, e troquei tudo que eu ia usar por tecidos. Porque você pensa, eu já contei essa história quinze vezes, mas quando você chega é tudo diferente do que você imaginava.

Como você guarda as suas histórias? Eu tenho um caderno no qual eu anoto as histórias que eu não tenho na íntegra e também os roteiros das histórias. Quando eu vou contar uma história que eu já contei outras vezes eu releio o roteiro. As histórias que eu mais gosto eu sempre repito, sempre que posso eu conto.

Como você escolhe as suas histórias? Depende, se for um trabalho já com o livro escolhido por uma livraria, eu nem escolho, mas, conheço muitas histórias desse jeito. Ou se é um evento mais específico, eu procuro saber qual o contexto, o que a pessoa gosta pra poder escolher uma história que encaixe melhor, ou até mesmo criar uma história. E história pra mim tem que ter lirismo, profundidade, tem que mexer com o meu imaginário, eu gosto de histórias pra sonhar. Eu prefiro histórias que dá pra colocar um violão, que dá pra dançar, que proporcionem lirismo. Prefiro histórias assim àquelas informativas.

Tem alguma coisa que você sempre se pega fazendo? Uma dificuldade que sempre volta?

Antes de contar a história eu faço uma preparação, que é fazer o pacto. Tipo: isso aqui é um elástico, o que ele pode ser? E eu sempre fazia isso e às vezes não precisava fazer, mas eu nunca conseguia não fazer. Até que um dia eu fui contar história com um amigo e ele me perguntou: porque é que você faz isso? E eu fui defender a tese: pra que eles entendam que os objetos podem ser outras coisas. Mas eles são crianças, respondeu meu amigo, se você segurar a colher de pau de um jeito diferente ela será uma espada. E realmente não precisa. Hoje eu estou um pouco mais aberta, às vezes eu faço o combinado, às vezes não, eu tento sentir. Porque às vezes a gente quer ganhar o público e acaba exagerando.

Você sempre trabalha com objetos? Qual a importância você dá pra esses elementos que vão além da tua voz/corpo? Como eu venho do teatro o objeto me ajuda a fazer os personagens. Eu penso bem no distanciamento entre o personagem e o narrador quando eu estou contando histórias. Então quando eu vou fazer um personagem eu coloco um tecido e quando volta o narrador eu tiro, por isso eu gosto sempre de ter a minha mala comigo pra contar história. E é engraçado que quando eu não estou com a mala, eu sinto que é uma energia a mais, eu me esforço mais pra deixar bem claro esses momentos. E se eu vou fazer um príncipe, eu nunca levo uma coroa, eu pego, sei lá, um conduíte e amarro na cabeça. Pra brincar com esse imaginário da criança, para o público complementar a imagem, a história.

Eu tenho uma grande dificuldade com finais. Você também tem essa dificuldade? Como são os finais pra você? Sempre é tenso o final! Aí eu lembro da Gigi do Bambalalão: entrou por uma porta saiu pela outra e quem quiser que conte outra. Eu já conversei com outros contadores de histórias e todo mundo tem esse problema de acabar a história. Um dia eu estava comentando com um contador de histórias muito bacana, e eu aprendi com ele. Ele falou ué acabou, acabou! Naquele dia ele contou uma história, falou, fez tudo e no final disse: e assim acaba a história, e todo mundo ehhhhhhhh!!!!! Simples assim! É só acabar! Mas é difícil…


Como você vive do seu trabalho com as histórias? Eu acho que arte é um trabalho, então a arte é um produto. Você tem que vender aquilo porque senão você não come. E aqui no Brasil é difícil pensar que arte é trabalho, somos criados nesse pensamento. Eu lembro que quando eu falei que iria fazer faculdade de teatro, a minha família falou: pelo amor de Deus! Eu já entrei em crise com isso, eu não sei me vender, a gente devia aprender isso na faculdade e a gente não aprende, porque isso faz parte do trabalho. Se eu fico aqui pensando e de repente tenho um super ideia, ninguém me paga por ficar pensando. Mas é tão importante ter essas pessoas que ficam pensando. Eu tanto não sei me vender que fui dar aula, que é minha outra paixão, mas, eu também sou contadora de histórias na sala de aula. Eu dou aula de criatividade numa instituição e eu fico seis meses com uma turma ensinando o ócio criativo.Eles acham que eu sou muito doida porque eu quebro esse movimento de “tudo pronto” que a vida de hoje proporciona. Mas onde fica a criatividade? A pessoalidade dentro disso tudo? Eu fico seis meses tentando fazer eles acharem as coisas que eles acham e não o que todo mundo acha. E porque eu falo as coisas que eu acho pra eles, eles pensam que eu sou doidona. Se a arte fosse realmente importante para as pessoas os governantes teriam também que reconhecer que a arte é importante, se fosse assim não teríamos tantos problemas em conseguir viver da nossa arte. Eu admiro as pessoas que põem o projeto debaixo do braço e vão embora…

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