• Emilie Andrade

Encontramento #2 - Ana Luísa Lacombe


A série ENCONTRAMENTOS nasceu do meu desejo de encontrar pessoas que contam histórias e que fazem do encantamento sua arte. Quero com isso aprender e dividir o aprendizado, fazendo de cada conversa um encontro encantado.. ou seria um encanto encontrado?

Foi em sua casa nova, a Casa do Faz e Conta, que Ana Luísa Lacombe e eu nos encontramos (ou seria, nos encantamos?). Acredito que abrir a casa da gente para uma pessoa, significa de verdade, que estamos abertos a ela, por isso, foi uma grande honra estar ali, entre figurinos, cartazes e objetos que são parte da história dela. Analú, como é chamada pelas pessoas mais próximas, me recebeu muito carinhosamente e abriu seu baú (literalmente) de histórias e experiências. Segue nossa conversa, que aconteceu enquanto ela arrumava a casa nova. Muitíssimo obrigada e sempre mais boa sorte, Ana!

Como a sua história contando histórias começou?

Eu comecei a fazer teatro com dezessete anos no Rio de Janeiro, fiz peças, trabalhei bastante e acabei vindo pra São Paulo numa turnê. Quando eu comecei a contar histórias, em 2002, eu já era atriz há mais de 20 anos. Aqui em São Paulo eu tinha um grupo que trabalhava mais com musicais, eu e mais dois parceiros. O grupo se mantinha através dos eventos que a nossa empresa fazia. Um dia, 1996, eu assisti uma contadora de histórias, a Leila Garcia uma grande amiga, e me interessei. Cheguei em casa e abri uma pastinha no computador e chamei de Faz e Conta. Quando o grupo e a empresa acabaram eu comecei a dar atenção pra essa história de contar histórias.

Então, uma vez eu fui viajar e nessa viajem conversando com um amigo que é músico e poeta, eu mostrei pra ele alguns livros que eu gostava e que poderiam ser histórias para eu narrar. Um deles tinha me chamado a atenção: Fábulas de Esopo. Contei que eu estava com vontade de fazer alguma coisa nesse sentido e ele todo animado começou a dizer: Qual história você quer contar? Como você quer fazer? E eu fui escolhendo, ele começou a escrever e acabou ficando um texto lindo, que até foi indicado para prêmios depois. Quando eu voltei dessa viagem eu montei este espetáculo. De início o espetáculo foi um fracasso de público, ninguém ia assistir… Até que quando faltava acho que duas semanas para acabar a temporada, o Dib Carneiro Neto foi assistir, adorou e me fez uma surpresa linda: na capa do Guia do Estado, saiu uma foto enorme minha e embaixo escrito O melhor do teatro infantil. E depois disso o teatro lotou! Eu não parei mais, fiquei dois anos fazendo esse espetáculo em vários lugares. Eu costumo dizer que durante dois anos eu fui uma contadora de três histórias! Aí eu fui pesquisar, estudar. Eu lia tudo sobre narração de histórias, fazia oficinas, ia a palestras.

Desses livros todos que você leu, qual foi o mais importante ou o que mais te ajudou a começar o seu trabalho como narradora?

O Acordais da Regina Machado, principalmente, o primeiro capítulo que fala da “paisagem na janela”, qual o meu ponto de vista, como eu conto. Eu sou muito histriônica, arregalo os olhos, mexo muito as mãos, falo alto e no começo eu não queria levar isso pra minha narração, mas eu fui descobrindo que eu sou assim mesmo e que tudo bem eu narrar do meu jeito, como eu sou. Mas o livro que mais me ajudou a entender esse universo e o significado das histórias foi O Poder do Mito do Joseph Campbell. Eu já tinha lido esse livro, mas reli com o olhar de uma contadora de histórias e foi muito esclarecedor. Depois li O Herói das Mil Faces dele também que foi decisivo nesse entendimento.


Que diferença principal você percebe entre o trabalho do narrador de histórias e o trabalho do ator?

A diferença é que o narrador é dono da própria palavra, as histórias que ele escolhe são aquilo que ele quer dizer. Enquanto que o que o ator diz é o que o personagem diz, e nem sempre é o que ele quer dizer para o mundo, nem sempre é o que nos interessa mais dizer naquele momento. O ator também lida com a palavra, mas com a palavra de outro, a do autor. Nós, contadores, também, ás vezes temos um autor por trás, mas escolhemos exatamente o quê deste autor queremos falar. Então, a palavra passa a ser nossa.

Você é figurinista e aderecista também. Qual a importância que você dá para os objetos no seu trabalho?

Eu estou descobrindo que a importância dos objetos é cada vez menor. Eu ainda uso muito os objetos, gosto muito de confeccioná-los, mas cada vez mais eu descubro que o que importa mesmo é a história e como a gente conta essa história. Eu lembro que uma vez eu contava uma história judaica que falava de um rio, de peixes, etc. e eu fiz tudo isso e usava muita coisa, os peixes, conchas, tecido, mas a história sempre terminava esquisita. Um dia eu resolvi fazer sem nada, apenas com o tecido que representava o rio, e nesse dia eu consegui fazer a história funcionar do jeito que eu queria.

Você tem preferência entre contar para adultos ou contar para crianças?

Não, eu gosto dos dois. Eu estava contando muito para crianças por conta do mercado, mas eu tive vontade de contar para adultos para abordar temas mais densos. Mas eu não tenho preferência, são dois desafios diferentes: eu gosto de contar para os bem pequenos, cuja atenção é muito fugaz; para as crianças maiores, que pra mim é fase de ouro que é dos quatro aos sete anos, que amam e embarcam com você. A única fase que eu tenho um pouco de preguiça é a adolescência: eu tive ótimas experiências, mas tive péssimas também. Quando me chamam, eu converso muito antes de ir e previno que se eu tiver que ficar convencendo de que o que eu faço é legal e sendo desafiada eu paro e vou embora, não vou ficar me esgoelando. Eu entendo, porque, para eles, a história está ligada ao universo da criança e eles não querem ser crianças. A gente tem que encaixar muito bem a história para que o adolescente entre nela sem perceber. Já pra adultos eu faço mais contos literários, em lugares aonde as pessoas vão para ouvir, então é muito tranqüilo. O adulto é mais crítico, a criança é mais dispersa, assim, ambos os públicos têm suas dificuldades e facilidades.

O que um narrador precisa ter e o que ele não pode ter?

Ele tem que gostar de ler e ter uma boa voz. Um narrador que não tem uma maleabilidade vocal fica limitado, eu insisto nisso, pra mim é a voz! O trato com ela, o cuidado com ela, disciplina, hidratação. E o que ele não pode ter? Eu acho que é ficar pensando na forma ao invés de olhar primeiro para o conteúdo. O contador de histórias tem que pensar primeiro no conteúdo. Que história eu vou contar, o que ela significa, o que eu quero dizer, como eu vou contar e saber sem dúvidas qual a seqüência dos fatos na história. Antes de saber tudo isso, não dá pra pensar em mais nada. Acho que ele não pode ter pressa de resultado, nem preguiça de repetir.

Como você escolhe as histórias que vai contar?

Depende. Porque tem muita demanda, solicitações sobre algum tema, um evento específico, mas de qualquer forma tem que ser uma história que você goste. Se você não gosta, não conta! Como você vai dar prazer pra alguém que ouve, com uma história que você não sente prazer em contar? Então, se alguém me solicita um tema, eu procuro ler muitas coisas pra poder dentro do tema escolher alguma coisa que eu goste.

E como você “guarda” essas histórias?

Eu coloco tudo no computador, transformo em arquivo de Word, trabalho sobre ela, imprimo pra poder riscar, rabiscar, trocar. Quando é texto de autor eu não mexo, no máximo corto quando é muito comprido, faço uma edição. Mas com os contos populares, eu mudo, reescrevo, ajeito.

E você tem preferência por conto de autor ou conto popular?

Não. Eu gosto de transitar por todos os universos.

Eu tenho muita dificuldade com a finalização das histórias. Você já teve essa dificuldade? Como você lidou com ela?

Já! Você tem que entender como a história acaba e estudar esse final. Normalmente eu crio alguma coisa pra fechar a história, um som ou uma música. Eu trabalho muito com o violão e, às vezes, é uma música que fecha. A música pra mim é uma solução boa pra começo e fim, tanto pra adulto quanto pra criança. Mas, às vezes, também, o fim dá errado quando a gente não entendeu direito qual é o “botão de volume” dele, acho que tem a ver com a análise do texto também.

Hoje em dia toda arte é também produto? Como você lida com isso?

Eu tive uma empresa de eventos. O meu produto ali não era arte, mas usava a arte como ferramenta. Então, ali era muito fácil vender: dois atores, três atores, duas entradas de 20 minutos… Tinha tabela de preços, era uma empresa e foi uma grande escola, foi uma faculdade de administração. Eu não tinha a menor idéia quando eu comecei a trabalhar e aprendi a administrar, a fazer orçamento, gerenciar, a pensar em custos. Hoje eu tenho muita clareza de quanto custa. Demorei pra achar os meus preços, a minha hora-aula, a minha apresentação de narração, o meu espetáculo. Então, pra mim tudo isso é tranqüilo. Hoje eu tenho uma produtora que me ajuda, porque negociar o próprio trabalho fica mais difícil, então é bom alguém que tem um distanciamento do trabalho e que sabe gerenciar. É melhor ter alguém pra fazer esse anteparo. Mas eu só consegui ter isso agora, depois de trinta anos de carreira. Aqui no Brasil a gente não tem essa coisa do agente que negocia por você, então o ator tem que ser um pouco empresário.


Qual história você acha que mais te representa?

Taibele e seu demônio. Um conto pra adultos do Isaac Bashevis Singer. Eu adoro contar a história da história, de como ela chegou a mim. Eu fui trabalhar no Centro de Cultura Judaica e depois da primeira reunião onde fechamos o contrato, eu saí de lá e fui para um sebo. E o pessoal do Centro de Cultura Judaica me contratou sabendo que eu não sou judia. Então eu fui para o sebo para adquirir material para começar a entender este universo. Entrei lá e disse: Dona Miriam, o que a senhora tem sobre cultura judaica? E ela falou: Eu! E respondi: Como eu não posso levar a senhora para a minha casa, diga os livros que a senhora tem? Ela separou alguns livros. Naquele dia eu comprei quatro ou cinco livros, e o livro do Isaac Bashevis Singer era um deles e foi o primeiro livro que eu li. Ele é ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, pensei: vou começar por ele, que acho que será um bom começo. E o primeiro conto do livro era Taibele e seu demônio e eu fiquei louca pela história. No dia seguinte eu só falava dela; eu tinha uma parceira que trabalhava comigo em um hospital e eu contei pra ela a história, eu só tinha lido uma vez e já contava a história inteira. Essa história foi a primeira coisa que eu fiz no Centro de Cultura Judaica, a primeira apresentação que eu fiz lá, em 2005, foi este conto. Dali pra frente eu tento contá-lo o máximo possível, é uma história que mexe comigo, saio sempre meio atordoada depois de contá-la.

Você sabe dizer porque ela mexe tanto com você?

Eu sei, é uma história de amor, meio Eros e Psiquê, meio A Bela e a Fera, uma mulher e seu demônio. Acho que mexe com minhas questões femininas, com minhas histórias, com meus amores. É uma fantasia, é uma história de amor em uma bolha e que uma hora estoura, é uma fantasia construída por eles dois. Uma história que começa triste, depois tem um pouco de suspense, depois tem algo de terror, e depois fica romântica e depois meio engraçada e por fim vira uma tragédia: em onze páginas. É genial! É um primor! O Isaac Bashevis Singer é um grande contador de histórias. Ele consegue, em poucas linhas, fazer você viver emoções completamente distintas, ele te leva por um fio e quando você vê já está completamente envolvido, é uma história arrebatadora.

#encontro #contadoresdehistórias #AnaLuisaLacombe

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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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