• Emilie Andrade

Encontramento #12 - Aldo Mendez

Nossa conversa aconteceu há mais ou menos dois anos!!! Nem acredito que o Encontramentos adormeceu tanto tempo, mas foi tão lindo. Como encontrar de novo! Tinha quase esquecido da doçura imensa da voz de Aldo.


Fiquei pensando porque demorei tanto, porque não consegui compartilhar antes essa pérola que o Aldo me deu? Sim, teve nascimento de filha, teve viagem de trabalho, teve mudança de estado, de volta e de novo, mas não é só isso. Alguma coisa me diz que essas ideias, que essa história que ele contou, tinham que chegar agora, bem assim como está sendo. Era pra nutrir a gente hoje, pra falar da gente agora, com esses medos, com essas aflições, como se o futuro já estivesse em nós.


Perdoa a demora querido Aldo, mas acho que no fim, nossa conversa veio ao mundo no tempo que precisava ser. Agradeço demais o presente da sua voz, do seu amor, da sua história, da sua existência nesse mundo.



Como a sua história como contador de histórias começou?


A minha história começa por casualidade como começam todas as histórias. Nela tem dois acontecimentos importantes: um livro que encontrei em uma livraria em Moscou quando estudava na universidade de lá e as palavras da minha professora de russo que, alguma vez, me disse que eu não iria viver da filosofia, mas que eu iria viver das palavras. Então, eu tinha 24, 23 anos, fazíamos teatro, nos juntávamos para recitar poesia, para cantar e eu contei, sem saber o que era.


Logo, ao voltar à Cuba eu tive a sorte de estar em um curso que tinha um módulo de narração oral com aquela que é minha professora até hoje, Mayra Navarro e aí começou tudo.


Depois vieram festivais, cursos, oficinas, foi tudo muito rápido e quando fui viver na Espanha comecei a viver dos contos. Os contos foram o elemento que me nutriu economicamente, afetivamente e que propiciou que as portas se abrissem pra mim na cidade onde vivo. Curtinho, é assim.


Você estudou em Moscou?


Sim. Era uma época, no século passado, com dois blocos claros: o socialismo e o capitalismo. Haviam os convênios e resultava que era muito interessante deixar Cuba e ir a outro país aprender. Era a possibilidade que tínhamos de conhecer outros mundos.


Como você prepara uma nova história para contar?


Faz um tempo que eu só conto minhas histórias, mas tento fazer com que o conto seja mais parecido com a oralidade do que com a escrita ou com a literatura. Por isso, em geral, não as escrevo, só as escrevo depois. Faço um esquema e jogo. Jogo a escutar, jogo a sentir.


Quando conto uma história de outro, uma história de um autor, uma história da tradição, tento encontrar o que há de mim nessa história. Então, eu não conto uma história só porque ela me comove, tento encontrar que parte de mim se comove e qual é o laço. Do meu ponto de vista, isso faz com que a história seja um pouquinho mais verdadeira, que se pareça com você, com as suas palavras, com os seus medos, com as suas esperanças. Mas, fundamentalmente, meu processo é esse: tentar encontrar na minha memória, nas minhas recordações, nas minhas lembranças o que tem na história que se parece comigo. Para que depois eu possa contribuir com uma história da minha vida.


O que um narrador tem que ter ou ser e o que ele não pode ter nem ser?


Olha, pra mim há três princípios básicos que são: autenticidade - ser a si mesmo; honestidade - mostrar-se e generosidade – e generosidade não é dar tudo. A generosidade é entender que, às vezes, é preferível fazer um conto mais curto que um conto mais longo. Porque nesse processo, o público é o mais importante, é a parte que torna verdade o que você diz. Eu acredito que essas são três bases muito importantes. Logo, acredito que um narrador tem que contar a sua própria história, saber quais são as suas sombras, suas luzes, seus medos, suas dúvidas, de onde vem, porque isso te ajuda a conectar com a história.


O que não deve ter? Creio que não deve ser pretensioso. Quando o narrador se enche de adornos, de pretensões falsas, se torna mentira. Se eu acredito que um narrador deve ser o mais parecido a si mesmo, se deve olhar realmente para quem se é. Não para quem quer ser, mas quem é! Não jogar o jogo das máscaras e não se despir no palco, já entrar nu. Saber quais são as partes da minha nudez que quero e posso mostrar. Para mim é importante porque, inclusive, em narradores de pouca trajetória o mais bonito é o genuíno. Quando já chega a falsear, a esconder, a maquiar aí, então, a verdade começa a não ser verdade. É outra verdade, mas não se parece com a verdade que eu acredito que deve ter um conto.


Você tem vivido viajante nos últimos tempos, como essa escolha encontra ou alimenta o seu trabalho?


Acho que foi o medo que me fez viajar. Cheguei numa etapa muito difícil onde se romperam muitas borbulhas, muitas coisas que já estavam feitas e tinha que começar a buscar um caminho. Claro que eu não pensava em buscar um caminho, mas buscar um lugar. A minha ideia era buscar um caminho para chegar a um lugar, mas cheguei a muitos lugares.


Tem sido bonito porque tem sido entender o valor verdadeiro do conto, tem sido entender que o cenário não é só o artístico, é mais um cenário social. Se aproximar das pessoas, aprender a escutar outros sotaques, outras maneiras de nomear, de dizer, outras línguas. Por exemplo, no Brasil eu conto em espanhol, finalmente, e sentir esse tecido das minhas emoções com as do público é uma aprendizagem. Porque aí se dá conta do esforço que faz o público para escutar a tua história. Se dá conta de que a sua história está neles, que você apenas abre a porta.

Para mim essas viagens, esses mundos, esses caminhos têm sido a possibilidade de saber-me um pedacinho pequenininho no ato de contar histórias. Não sou eu, é o conto, é o público, é a palavra, é a memória, são os medos, são as ganas. São tantas coisas!


É muito bonito porque é como começar sempre. É como começar, sempre era uma vez, era uma vez e logo vê e se dá conta que há coisas que se repetem, mas acredito que o lindo é isso, não? Poder jogar porque pra mim, contar contos é como um jogo: tem regras, mas você move as regras de acordo com as circunstâncias. Tenho me permitido jogar, tenho me permitido modular a minha voz para que a minha voz vá se acomodando à orelha e há aí um jogo. Tem sido muito importante. Definidor, não definitivo, mas sim definidor.



Alguma experiência que você teve narrando ou ouvindo um conto que te fez pensar “opa, acho que preciso experimentar outros caminhos”?


Sim, muitas, todas. Sempre que conta você não sabe se aquele é o caminho. Ou conta algo, acreditando que é novo e já está nomeado. Faz um mês, na Colômbia, contei uma história mágica sobre o surgimento do meu povoado que é um povoado que o mar arrastou desde a praia até a montanha e as pessoas não se deram conta porque estavam dormindo. É mágico, tem um ponto de ficção. Quando termino um homem se aproxima e me diz “isso do seu povoado é verdade, né? ” E eu disse “bom...”. E ele “não, é que aqui quando teve um terremoto morreu muita gente e uma senhora que estava dormindo, não morreu. Quando ela acordou é que se deu conta de tudo que havia acontecido”. Então, a realidade já tinha feito o que eu estava nomeando como algo poético.


Aconteceu também em Cuba, fiquei muitos anos sem voltar a contar e quando voltei meu pai estava doente, tinha feito uma operação importante e quando eu termino de contar uma história, me dou conta que uma das frases finais do conto falava da realidade que eu estava vivendo. Então, a resposta é sempre.


Por isso digo que a busca é em direção a si mesmo e curando-se porque o público não quer ver gente enferma. Já todos temos as nossas enfermidades e me parece muito cruel e muito egoísta subir ao palco para fazer chorar os teus prantos. Não, não, eu quero que os meus prantos se pareçam com os seus e que choremos juntos. É o que tenho descoberto, que todos somos muito parecidos. Com todos os medos das nossas culturas, das nossas morais, das nossas raças, das nossas sexualidades, mas em todos há um denominador comum: somos seres humanos. Isso é bonito. Quando se dá conta de que a sua irmã é a irmã de todos, de que a sua avó é qualquer avó do mundo.


Coisas que acontecem com as crianças, coisas que você não vê e que o público te devolve e você diz “anda! temos que mudar”. Porque eu não estou falando da morte eu estou falando da vida, mas se alguém escutou morte onde você disse vida, não está bem construída sua “vida”.


Aprender, acho que foram duas das aprendizagens mais bonitas que tive nesses tempos. Primeiro que eu não trabalho para que as pessoas escutem, eu trabalho para que as pessoas descubram que elas têm voz. E segundo que a finalidade da narração oral não é ser simpático, é ser empático. É tentar colocar-se no lugar do outro ou passar perto do lugar do outro. Eu não posso abraçar todo mundo que quero abraçar, mas quando conto eu abraço... Esse é o jogo. É o mais bonito que tenho descoberto nesses caminhos. Que não tenho que ser o cubano que todo mundo espera que eu seja, que me confundam. Não, existe uma verdade que vai além disso e a verdade é que eu estou contando essa história.


Qual era seu maior desafio ou dificuldade quando você começou e qual é hoje?


No começo tinha muitas coisas difíceis. É muito difícil mostrar a si mesmo, é difícil superar meus preconceitos comigo, com meu corpo, com a minha gestualidade, com a minha voz, com a minha sexualidade, com tudo. Quem é você e o que as pessoas têm a ver com você? Isso é muito difícil!


Eu falo muito da literatura, da escritura e da oralidade. Venho de uma geração que nos ensinaram a pensar como se estivéssemos escrevendo e isso foi umas das coisas mais difíceis. Entender o caminho entre o escrito e o falado. Isso era muito difícil porque era como tentar memorizar, memorizar, não esquecer. Essa acredito que foi a luta mais difícil.


E agora mesmo, tenho uma luta muito grande. Sou uma pessoa muito expansiva, muito aberta, chamo muito a atenção, sou muito egocêntrico. Acredito que a minha maior luta é colocar o ego em função do conto. Ainda que as pessoas vejam a mim, amanhã você pode contar esse mesmo conto sem que eu esteja presente. Às vezes, é difícil porque tem meus histrionismos e coisas. Creio que é a minha busca de agora.


Também tenho muito medo dos espaços muito grandes. Na Casa Tombada foram 30 pessoas, foi bonito porque te cabe todo mundo no abraço, te cabe todo mundo na palma da mão e essa é a minha luta. Não é sobre atuar, nem sobre dimensionar os meus histrionismos é sobre entender que a narração oral é um ato íntimo, um ato como que de confissão, de entrega, de olhar nos olhos e quando tem muita gente, se perde. Tem que apelar a recursos que não são próprios para contar.


Das histórias que você conta, qual conta mais de você, da sua terra, da sua cultura?


Tenho uma série de contos que tem a ver com a minha família, com a minha irmã, com os meus avôs. São contos muito focados no realismo mágico porque são acontecimentos reais, mas sublimados. Acredito que isso conta o que sou. Sobretudo porque agora mesmo estou fazendo um espetáculo, só fiz três vezes acho, que se chama “Vivir para contarla”, que também é o nome da oficina, onde apelo para contos de outros autores que foram importantes para que eu encontrasse a minha voz. Esses contos me levam agora a uma história que só agora estou contando em público, não contava porque foi um texto que escrevi em uma livraria no México enquanto esperava uma amiga. Vou te contar essa história porque acredito que ela conta o que sou e conta da minha busca.


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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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