• Emilie Andrade

Encontramento #11 - Kika Antunes


Era uma vez uma bailarina chamada Kika. Quando a Kika dançava ela era proibida de falar e ela não gostava disso. Um dia, a moça descobriu que podia falar se contasse histórias. Então, ela começou a contá-las só pra poder falar. Era a paixão da vida dela! Kika amava tanto seu ofício que ela foi ficando muito boa naquilo. Até que um dia, um duende bem travesso ouviu a Kika contando uma história e ficou tão admirado com a facilidade e alegria dela ao contar, que ele decidiu jogar um feitiço nela. Era um feitiço atrapalhante que atrapalhava o corpo dela. A voz passou a se esconder no meio da frase, a perna cisma de ir pra um lado quando ela quer ir pro outro e, assim, a contadora de histórias teve que descobrir novas maneiras de fazer o que antes ela fazia com muita tranquilidade. Só que sse feitiço, acabou se tornando uma benção (quase sempre) porque ele carrega também um mistério: sempre que a Kika descobre um jeito novo de fazer alguma coisa, e isso acontece todo dia, ela cresce um pouquinho. Hoje, a Kika é uma gigante!


Por que você conta histórias?

Por que? Não sei também (rs). Eu comecei por acaso. Eu dava aulas de dança na Secretaria do Menor do Estado de São Paulo já fazia oito anos. Antes de ser atriz eu era bailarina clássica, só que eu fazia umas coisas diferentes. Essa coisa do bailarino não falar me deixava louca e eu descobri que eu queria falar. Então, eu fui fazer teatro na escola Célia Helena e foi a melhor coisa que eu fiz. Eu podia falar, as crianças que eu dava aula podiam falar, todo mundo podia falar (rs) e foi uma delícia. Minhas aulas melhoraram muito. Acontece que eu cansei de trabalhar na Secretaria do Menor porque foram muitos anos lidando com crianças com histórias muito tristes. Aí, me formei naquele ano e fui falar com a Célia Helena que já estava doente e com a Lygia (Cortez), se elas sabiam de algum trabalho pra mim. Dar aulas de teatro, qualquer coisa. Logo depois, me chamaram pra fazer um teste na editora Ática que era na frente da Escola Célia Helena. Essa editora estava fazendo um projeto de histórias para escolas. Eles tinham tentado fazer com professores, mas não tinha dado certo porque os professores se escondiam atrás do livro pra contar as histórias. Então, eles estavam tentando com atores e foram pedir pra Lygia e pra Célia indicar atores da escola delas.

Passei no teste, mesmo sem saber se eu sabia fazer aquilo, mas era pra ganhar o dobro do que eu ganhava e trabalhar metade do que eu trabalhava, então eu fui. Era muito legal e o mais legal é que eu tinha muita autonomia. A diretora de marketing me disse: “pode criar o projeto, a única coisa é que você precisa trabalhar com o catálogo da editora”. E o catálogo era muito legal. Sylvia Ortoff, Eva Furnari, autores maravilhosos. E aí, todos os dias eu tinha quarenta crianças do jardim à quarta série, que é como chamava naquela época, divididos por faixa etária. Emilie, eu pirei! Eu aprendi a ser atriz, eu aprendi a ser educadora, eu aprendi tudo ali! Errando pra caramba, enfiei o pé na jaca com vontade, mas foi muito bom!

Acontece que eu trabalhava também na Casa do Teatro como assistente da Simone (Grande) e eu trouxe ela pra trabalhar na editora comigo. Ela trabalhava um período e eu o outro e a gente arrasou. A gente conseguiu compor um repertório maravilhoso, deu super certo! Mas, um belo dia a editora parou com o projeto e a gente foi mandada embora da noite pro dia. Quando a gente foi mandada embora a gente pensou: “a gente sabe fazer isso, agora é com a gente! ”

Acabou surgindo outro trabalho num espaço kids de um supermercado grande. Eles tinham um espaço do conto e queriam terceirizar, a gente fez um projeto e foi aprovado. Era uma loucura! A gente contava histórias patrocinadas. Foi lá que a gente montou o grupo As meninas do Conto e a partir dali foi uma jornada inteira. Foi assim que eu comecei a contar histórias e eu me apaixonei e é a única coisa que eu sei fazer até hoje.

Aí, em 2009 eu saí das Meninas do Conto meio sem entender o que estava acontecendo comigo porque eu ainda não sabia. Eu tive uma ruptura muito forte com a Simone. Hoje eu olho pra trás e entendo. Foram caindo as fichas aos poucos, mas eu já não dava conta de tudo que tinha que fazer. Meu corpo estava outro e era difícil de admitir que eu não dava mais conta de uma coisa que eu era dona a tanto tempo.

E tantos anos depois eu tenho que me reinventar porque não dá mais pra contar como eu contava por conta da doença. Isso de ter que descobrir uma forma nova de contar também foi muito legal, apesar de ser muito duro pra mim. Parece que deus faz assim: “ah tá muito fácil, vou complicar um pouquinho. ” E pinga uma coisinha que desestrutura tudo e você tem que continuar de outro jeito. Eu estou nessa fase de descoberta. Ainda não descobri, ainda não sei o que eu vou fazer da vida, mas eu acredito que exista outro jeito. E nesse momento eu não posso deixar de falar da Regina Machado, uma pessoa que eu sempre respeitei. A minha trajetória nunca tinha cruzado com a dela. Em 2012, quando eu tinha acabado de descobrir a doença de Machado Joseph, eu encontrei com ela numa livraria. Eu estava muito emocionada da descoberta e contei. Ela me disse: “Kika, você não pode para de contar. Com língua, sem língua, com mão ou sem mão. Se vira, mas não pare de contar. ” Eu nunca me esqueço disso e eu ouvi. Foi uma acolhida muito importante, muito! Desde então, eu estudo com ela, participo do grupo de estudos e isso me ajuda demais. Me fortalece muito.

Tem alguma história que você ouviu ou viveu na infância que hoje você conecta com o seu trabalho como narradora?

Minha mãe contava João e Maria pra mim. Eu pedia pra ela contar. E olha que a minha mãe me esquecia na catequese toda semana, eu sou a quarta filha, coitada. Eu chorava e pensava “ai, e agora? Eu não deixei nada pra marcar o caminho, não vou saber voltar”. Eu achava que essa história era a minha, sabe? Durante muitos anos eu adorei essa história, mesmo grande. É a luta dos irmãos pela sobrevivência.

Qual característica um contador de histórias precisa ter e qual ele não pode ter?

Primeiro, eu acho que é gostar. Gostar de falar. Eu, por exemplo, por conta da doença eu tenho dificuldade de falar, eu falo muito menos e ouço muito mais. Mas isso não significa que eu tenha deixado de gostar desse elemento. É difícil falar, articular, a voz some, mas eu ainda gosto da linguagem. De como o pensamento se cria. E eu acho que o contador de histórias tem que gostar disso. Dá pra entender?

Agora, o que ele não pode? Nunca pensei nisso, mas acho que não pode ser egoísta. Por ouvir muitos contadores de histórias, você começa a perceber atributos e uma coisa que eu não gosto quando vejo, é quando percebo que é uma coisa egóica. Quando você percebe que a pessoa está representando, aí aquilo vira teatro da pior espécie. Isso me cansa.

E, como contei muitas histórias, principalmente pra criança, eu conseguia assistir quando isso existia em mim. Eu falava que tinha uma Kika aqui atrás que está vendo tudo e ela dizia: “Nossa, que ruim isso. Que merda!” (rs), mas, que bom, porque aí você consegue identificar o momento que você não está colado em você. Não tá vivo, disponível, generoso, não tá junto. Eu acho que isso são coisas que o contador não pode ter. Esse descolamento, essa ausência dele mesmo. Eu vou ouvir histórias não pela história só, eu vou ouvir história porque eu quero ver a pessoa que tem ali dentro. Se eu não vejo, esvazia tudo. Às vezes, eu fico pensando no porquê de Big Brother fazer tanto sucesso? Eu acho que é porque as pessoas querem ver gente, elas querem se identificar, talvez pra confirmar a existência delas mesmas.

Depois que você escolhe uma história pra contar como que você faz pra se preparar?

Ai, menina isso tem sido um problema porque eu descobri que não tem uma história que eu gosto (rs). Eu gosto, mas não goooooostooooo, sabe? Tem umas histórias que eu gosto de contar, aí tem época que eu detesto e fico de mal delas. Antes, eu tinha toda uma metodologia que eu desenvolvi com a Simone que é absolutamente igual a todas as metodologias que todo mundo desenvolve (rs). Dividir em tantas partes, tarará (rs). É tudo igual e a gente chegou nisso sem professor. Agora, eu acho que a melhor maneira é contar 500 vezes, pra várias pessoas, de várias formas. Contar, recontar. Eu fico meio obsessiva, é uma questão de honra. É contando e, principalmente, errando. Se permitindo errar. Errar com olhos de observação pra você poder aprender com aquilo. Mas, não tenho grandes técnicas, não, é meio na raça (rs).


Qual foi ou é a sua maior dificuldade? E como você lidou com ela?

Quando tinha uma criança que não estava prestando atenção ou um pai que estava dormindo. Aí, eu contava pra ele. Eu fazia de tudo pra ele prestar atenção em mim. Ou aquela criança que fica atrapalhando durante a história, aí eu atrapalhava mais que ela (rs). Eu grifava que ela estava atrapalhando.

E funcionava?

Funcionava, mas às vezes ficava um pouco grosseiro (rs). Já teve pai, mãe, brigando comigo (rs), mas eu lidava desse jeito.

Olha, eu contava histórias no MAM e toda semana repetia as histórias e o público também. Eu contava histórias e as crianças nem ligavam pra mim. Um dia, sei lá o que eu fiz que eu contei em outro ritmo, eu fiz uma pausa e uma menina que parecia que nem estava prestando atenção continuou a história. Ela estava totalmente comigo. Aí eu pensei: ah, ela está ouvindo, só que ela ouve com o corpo inteiro, não só com os ouvidos, não só com os olhos. Eu tinha que entender que eu nunca ia ter uma plateia de crianças daquela idade, quieta. E quando eu entendi que esse é o jeito delas ouvirem, a minha narração ficou muito melhor.

Agora, quando o ambiente é inadequado, essa escuta das crianças fica comprometida, porque aí eles prestam atenção em outras histórias e não na que você está contando. Com esse boom de contação de histórias, colocam a gente pra contar histórias em shopping, em livraria. É difícil, mas, ao mesmo tempo alguém que está atrás da prateleira pode prestar atenção na sua história. Mas é difícil, fazer o quê? Faz parte do pacote do contador de histórias da cidade. Às vezes, por mais que você tente, você não consegue, mas não é por você, é porque o outro está em outra e tudo bem também! O que faz você ser interessante? Acho que você tem que olhar pro lugar que você está, pro ambiente. O que está inadequado aqui? Eu? Ou a criança que está prestando atenção em outra coisa?

Qual história você mais gosta de contar ou mais conta sobre quem você é hoje? Conta pra gente?


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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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