• Emilie Andrade

Encontramento #10 - Lili Flor e Paulo Pixu


Viver em São Paulo tem dessas coisas. Quem podia imaginar que a Lili e o Paulo precisariam ir até o México e voltar pra gente descobrir que somos vizinhos. Vizinhos mesmo, estamos há uma rua de distância. Pra fazer curta uma história longa: há alguns anos Lili e Paulo foram convidados para ir ao México participar de um festival. Eu também. Eles foram, eu não pude ir por conta de outro trabalho. Chegando lá, um dos organizadores do festival que já era meu amigo pediu pra eles trazerem umas coisinhas pra mim. Quando Lili entrou em contato pra gente se encontrar e ela poder me entregar a encomenda, descobrimos que morávamos muito muito perto. Eita, que esse Universo caça jeito, né? Desde então, já tomamos alguns cafés juntos e meu carinho e admiração por eles só fez crescer.

Paulo Pixu é um músico que se considera um espectador privilegiado das histórias. Alguém capaz de ouvir os contos e ajudar a conta-los através de brincadeiras sonoras. Discorda, comenta, faz graça, dialoga, cria ambientes e canções para as histórias que a Lili conta de boca.

Lili Flor é uma pesquisadora apaixonada pela literatura infantil. Educadora, mediadora de leitura e uma narradora que canta e conta histórias.

A Lili e o Paulo jogam entre si e com a plateia. Não existe uma separação: ela cuida mais da história e ele cuida mais da música, mas os dois estão sempre atentos um ao outro. Existe diálogo.

Os dois se conheceram quando Lili integrava o e Paulo apareceu para cobrir um dos músicos.

Ela conta: Aí foi muito engraçado. A gente marcou um ensaio e no primeiro dia que o Paulo me viu ele já se apaixonou. No primeiro ensaio! Eu sei porque ele me contou. A gente fez essa temporada juntos, ficamos um ano sem se ver. No ano seguinte, a história se repetiu, ele veio de novo substituir. Foi só no terceiro ano que a gente resolveu mesmo se entender. Eu já estava meio que me desligando do Girasonhos porque eu queria um caminho meu de descoberta. Foi então que eu chamei o Paulo e falei: você é músico, eu sou contadora de histórias, eu já estou querendo sair, vamos fazer a nossa história? Nós dois? Aí eu saí do Girasonhos e a gente juntou a vida e a arte, casou e foi o começo da nossa história.

Ele conta: a primeira grande apresentação da dupla foi o que fez o trabalho deles engrenar. A gente embalou mesmo quando apareceu o convite de Hidalgo, no México. Ela não queria ir, porque já tinha ido sozinha pra Colômbia e a gente já tinha começado algumas coisas aqui. Eu já estava meio cansado de tocar na noite, já estava meio querendo parar. Então, a gente começou meio devagarinho, passo a passo, até a gente escolher as histórias. Aí quando apareceu o lance do México a gente falou, vamos parar tudo e fechar na dupla, vamos focar, mesmo porque o desafio era grande. A gente precisava se dedicar. Então, a gente se debruçou no trabalho e estamos até hoje. A gente está junto há quatro anos, mas parece que faz trezentos. Essa frase foi dita com o maior sorriso no rosto. Dos dois!

Agradeço demais, vizinhos! Pelo tempo dedicado, pelos saberes compartilhados e pelo bolo de fubá com erva doce.


Como vocês preparam uma história?

Lili - Quando a gente escolhe uma história a gente senta juntos e vai mapeando. Como a gente vai começar? Como vai ser a abertura? A história fala sobre o quê? A gente sempre abre com música. É importante também dizer que a gente trabalha mais com histórias autorais do que com histórias da tradição oral. A gente tem autores nos quais a gente acredita muito. Por exemplo, o Gianni Rodari que é um escritor italiano da década de 1920, professor do sistema Reggio Emilia. A gente se identifica muito com o que ele pensa, então ele é muito presente no nosso trabalho.

Paulo - A escolha da história normalmente parte da Lili, ela é formada em Letras e especializada em Literatura Infantil, ela sempre teve o livro muito presente. A gente senta junto, a Lili lê muito bem em voz alta, é gostoso de ouvir. Eu vou propondo sonoridades, trago um monte de cacarecos musicais. A gente fica brincando com a história e com as músicas. Nosso repertório sempre envolve música e humor.

Lili - Eu encomendo muito, falo Paulo, cria uma música pensando nisso ou naquilo. Eu leio as histórias muitas vezes pra ver se aquela é mesmo pra contar. Porque eu acredito também que tem histórias que ficam muito melhor lidas. Como a gente também faz muito o trabalho de mediação de leitura, eu leio para as crianças as histórias que eu estou querendo contar, experimento muito antes. Quando eu percebo que sei a história, às vezes, eu deixo o livro de lado e conto. Algumas frases do autor têm que ficar e outras não, aí eu uso as minhas palavras, mas, sempre falo do autor e levo o livro. Mas, no livro é uma coisa e como a gente conta é outra. Esse é o nosso grande desafio. Quando eu comecei a contar histórias eu dividia a história em partes. Mas, depois no trabalho com o Paulo, como a gente constrói junto cada momento, essa divisão acontece com a música. Essa construção para o contar é ali com a música, com o Paulo.

Paulo - Uma coisa que a gente faz muito também é gravar. A gente faz um roteiro e grava as partes. No final a gente ouve todas as partes. Porque quando a gente toca ou fala é uma coisa, depois que você dá um tempo, deixa aquilo quieto, toma uma água aí vai ouvir de novo, o ouvido já limpou e a escuta é outra. Funciona bem. Além disso, a gravação também serve como um acervo.

O Paulo começou com as histórias no Girasonhos, mas foi mesmo com a Lili que a relação se fortaleceu. E você Lili, como começou a sua história com as histórias?

Eu sou professora de formação e comecei dando aulas pra crianças bem pequenas. Sempre entendi que as histórias tinham que estar presentes nas escolas e sempre gostei muito dos livros e da literatura, não por formação familiar. Meus pais se alfabetizaram depois de adultos, depois que eu terminei minha primeira formação e insisti muito pra que eles se alfabetizassem. Mas, eu sempre ouvi muita história de família, sempre falei muito e quando eu fui dar aula pra educação infantil o livro era um recurso. Eu contava e lia muitas histórias para as crianças. Todos os dias.

Eu fiz parte de uma das últimas turmas do CEFAM e eu tive sorte de conhecer professores jovens que faziam mestrado na USP e que tinham ideias revolucionarias. Eu já fui dar aula pensando nisso. Depois, eu acabei fazendo Letras e aí que a coisa pegou mesmo. Eu falei: - Meu negócio é livro pra criança, é história pra criança. Todo meu caminho na universidade foi pra isso. Minha pós-graduação foi nisso. Meu mestrado, que eu não terminei, também é nisso.

A vida me levou para as histórias de uma forma muito interessante. Quando eu me formei em Letras, fui tentar dar aula de Literatura pra Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Eu fiz Letras porque eu não queria só ficar na sala de aula, eu queria fazer outros projetos com literatura, eu queria outros caminhos dentro da escola.

Aí cheguei numa escola para procurar emprego de professora de Literatura e caiu um projeto no meu colo. Nesse colégio eles tinham uma biblioteca e eles queriam fazer um projeto de info-educação. Era um projeto do Edmir Perroti que é da USP, ele tinha implementado nas escolas aplicadas e, em meados dos anos 2.000, ele estava levando para as particulares. O colégio não tinha quem levasse o projeto pra frente. Eu bati alí bem nessa hora. Lembro como se fosse hoje. O diretor falou: eu não tenho aula, mas eu tenho um projeto de literatura na biblioteca. Você topa? Eu topei na hora. Foi então, que eu transformei aquela biblioteca em um pólo cultural. Tinha contação de histórias diariamente, para todas as turmas. Aí eu me descobri contadora de histórias.

O primeiro livro que eu contei foi Horoun e o mar de histórias do Salman Rushdie. Um livro enorme de oito capítulos que eu dividi em seis partes. Eu queria mostrar a importância do contador de histórias tanto para os diretores, quanto para os alunos. Era eu e minha voz só. Era um livro super difícil de contar e eu contava para todas as turmas em encontros semanais então, eles tinham que esperar a semana que vem para ouvir o resto da história. Aí eu peguei os alunos e os professores! Eles vinham no intervalo me perguntar como a história continuava. Eu precisava criar uma estratégia porque ninguém ia na biblioteca que ficava em um prédio separado. Eu pensava que eu precisava levar as pessoas pra lá.

Eu também tinha muito claro que aquele espaço só seria atrativo se ele tivesse cor, então, eu fazia uma cortina diferente toda semana na porta da biblioteca. Mexia com todo mundo da escola: o marceneiro, o pessoal do ateliê de artes. Todo mundo!

Aí o trabalho foi crescendo, eu me tornei coordenadora desse projeto porque a escola tinha três unidades. Aí, não dei mais conta e contratei uma moça que fazia pedagogia na USP e era musicista. Então, a gente trouxe música pra dentro da biblioteca. Desde os bebês até o ensino médio ouvindo histórias. Era uma loucura total! Entrava uma turma de pequenos era uma história, entrava ensino médio era outra. Eu fiquei fazendo isso durante cinco anos.

Um dia, como eu tinha muito contato com os autores que vinham nas nossas bibliotecas, o Ilan Brenman me ligou. Ele disse que ia dar um curso para contadores de histórias na Biblioteca Municipal Hans Christian Andersen e queria que eu fosse com ele. Eu falei: eu?! E ele disse: é, você faz um super trabalho aí, você que faz a formação dos educadores, eles são contadores de histórias, mediadores de leitura. Vai ser super legal! Eu respondi que não ia nada.

Mas, aí a gente se encontrou e sentou pra conversar e ele me explicou que ele tinha sido convidado para ministrar o curso que já acontecia há alguns anos, que o público era diverso e eu topei. Ele ia dar o curso essencialmente e eu ia ficar com a parte da mediação de leitura, do livro, como utilizar esses recursos em ambientes educacionais. Aceitei o desafio. Só que no fim, o Ilan acabou tendo muitas viagens e não pôde, realmente, dar o curso. Na ocasião, o Giba (Pedrosa) foi chamado. Então, o Ilan me apresentou para o Giba e disse que já tinha combinado comigo que eu ia participar do curso, que eu ia contribuir e blá blá blá e o Giba topou que eu ficasse.

Foi aí que eu fui trabalhar com esses contadores de histórias e entendi melhor o universo dos contadores de histórias. Eu percebi que existia um mundo enorme e que eu podia fazer tudo o que eu fazia na escola, fora dela. Porque querendo ou não, a escola te fecha um pouco lá dentro.

O Ilan me convidou pra contar a história de um livro dele numa livraria, eu fui e gostei muito. Percebi que era diferente contar fora da escola. Aí eu montei uma dupla com o Vinicius Medrado, que é um harpista. Eu contava histórias com harpa! Fui fazer esse trabalho em escolas. Fui fazendo em escolas e um dia surgiu um convite pra fazer no SESC Ipiranga. Aí foi a estreia! Só que no final da temporada de quatro encontros, eu estava super feliz e empolgada, mas o Vinícius me disse que apesar de ter sido muito bonito, aquela não era a praia dele.

Passou um tempo, o Giba tinha saído do grupo Girasonhos e me falou: Lili vai trabalhar com o Girasonhos, tem tudo a ver com você, você canta, gosta de música. Aí eu fiquei entre 2010 e 2013 no grupo Girasonhos. Foi uma baita de uma escola!

Depois fui estudar teatro. Eu me lembro, alguém veio falar comigo no SESC depois de uma apresentação: Lili você é ótima, mas você é uma professora contando histórias. Vai fazer teatro. Aí eu fui.

E te ajudou?

Muito! Me ajudou a descobrir a minha voz, o meu corpo, me ajudou a me descobrir. Mas, eu vou te dizer, chegou uma hora, como eu já contava histórias, que eu não queria mais estudar teatro, não. Eu queria estudar a minha arte. Aí, terminei o que tinha que terminar no teatro e foi, então, que eu conheci o Paulo.

A nossa história é muito linda. As histórias me deram muitas coisas. Eu descobri a minha missão no mundo. Eu fui uma menina de periferia, vida difícil, família muito pobre. Saí desse universo que era super perigoso, drogas, assassinato, todas essas coisas. Eu saí ilesa. A literatura, as histórias, as artes, foram me tirando aos poucos até que eu encontrei o meu caminho.


Uma coisa que vocês acham que um contador de histórias precisa ter e uma coisa que ele não pode ter.

Lili - A pessoa que conta histórias tem que ter muita criatividade. Tanto pra pensar no conteúdo, no que ela quer dizer, quanto pra se reinventar sempre. Tem que ser muito criativo, o tempo todo e não pode ter medo. O medo paralisa. Ah não vou falar disso, não vou tocar nesse assunto, nesse conceito. Sintetizando ao máximo, o contador de histórias é um vendedor de ideias e sonhos. Ele tanto vende uma ideia de construção de mundo, de consciência, de valores, como ele também é uma ponte para o sonho.

O contador de histórias é um revolucionário e é preciso ter muita coragem.

Ele pode construir, mas também pode destruir se ele traz sempre conceitos fechados.

Paulo - Eu acho também que em relação à arte é preciso se livrar dos preconceitos e ter muito amor pelo que você faz. Se você tem isso, você já tem 90% porque o resto é gosto e, gosto não quer dizer muita coisa.

Como vocês entendem a profissionalização do contador de histórias e como é isso no trabalho de vocês?

Paulo - Dentro das artes, é uma profissão viável e importante, tem um valor imenso na cultura, é fundamental. É um dos ofícios mais antigos do mundo, os contadores de histórias ajudaram a construir a sociedade. É preciso que seja mais reconhecida como arte porque ainda é complicado. Falta o mercado entender que o contador de histórias não é um contador de historinhas. As pessoas falam isso e não é com carinho, é pra diminuir mesmo. O contador de histórias quando é bem colocado tem uma força revolucionária.

Lili - A questão da profissionalização do narrador é uma questão muito difícil. Eu entendo assim: o narrador nunca teve isso como profissão, ele era um artesão que contava histórias, era o chefe da tribo que contava histórias, ele sempre era alguma outra coisa e tinha essa arte com ele. Com o passar do tempo, essa figura foi aparecendo muito no teatro. Só que essa figura que usa o espaço público para se apresentar, ainda é novidade. A gente ainda está filiado ao teatro, ainda não está claro no universo profissional. O que a gente tem são grupos surgindo cada vez mais, pessoas se dedicando a isso. Também temos uma coisa, que eu acho que é um grande desafio, a gente tem muitos atores que migraram do teatro para a narração. É um ator contando histórias, existem muitas companhias de teatro fazendo isso, então, o mercado que recebe o contador de histórias é o mercado que recebe o ator contando histórias. Então, definiram que pra você ser contador você tem que estar nessa classe profissional. Porque é assim que é entendido a transmissão do conhecimento: tem que encaixar numa caixinha. As linguagens são essas caixinhas. Mas, se a gente for ver a gente tem professores que contam histórias, atores, bibliotecários, entende? Sempre parece que essas pessoas sempre tem uma profissão e a arte da narrativa é um hobby dele. Como alguém só é contador de histórias?

É uma coisa que tem que ser muito pautada, muito discutida, mas, eu acredito também que com o passar dos anos, a gente vai tendo cada vez mais espaços para os narradores e mais espaços de formação, com o tempo isso muda.

Paulo - A gente tem que partir de um recorte porque a gente vive numa cidade grande. Esse recorte está relacionado com a cidade que a gente mora. A cidade que a gente mora tem aparelhos públicos voltados para as artes cênicas, então o contador de histórias acaba tendo que ocupar esses espaços. Talvez, os lugares que estão mais preparados e mais disponíveis mercadologicamente falando, sejam justamente esses espaços onde as artes cênicas imperam. A cidade grande te limita também, então o narrador precisa descobrir o espaço que ele ocupa. Talvez, o narrador ainda tenha que se reinventar dentro de um espaço urbano.

Por exemplo, eu acho as escolas um super circuito cultural para a narração de histórias.

Eu tenho uma utopia nesse sentido, que os narradores pudessem formar público dentro das escolas. E formar público é formar artistas também.

A gente percebe o quanto é difícil ter público, as pessoas não estão acostumadas a ouvir histórias, as pessoas acham que é meio como uma sub-arte. Como se fosse uma arte menor.

Lili - E esse mesmo mercado acaba ditando a nossa demanda. O narrador legal é o que usa cenário e figurino ou que usa isso ou aquilo. E tem narrador de histórias saindo pelo ladrão e se você recusa um trabalho tem vinte na fila pra fazer. A gente acaba ficando sufocado com essas demandas do mercado.


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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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