• Emilie Andrade

Encontramento #1 - Cristiana Ceschi


A minha primeira conversa foi com a queridíssima contadora de histórias Cristiana Ceschi, uma moça generosa de um jeito que não se vê muito por aí. A conheci através da internet e a encontrei de verdade por um convite dela, que sem nem me conhecer me convidou para um trabalho muito bacana com o coletivo que ela criou com Beatriz Carvalho, o coletivo As Rutes. É ou não é generosidade transbordante? Obrigada Cris, pela conversa enriquecedora e pelo carinho.


Como a sua história contando história começou?

Toda vez que alguém pergunta “como você começou?” eu acho difícil responder. Porque tem um caminho profissional que é quando você começa oficialmente a ser uma contadora de histórias; e tem outro caminho que não o profissional, que eu acho tão interessante quanto. Então eu acho que a minha inspiração de ser contadora de histórias começou com a minha avó. Ela se chama Cristina, eu tenho uma avó chamada Cristina e uma avó chamada Ana daí meu nome ficou Cristiana. E eu tenho essa avó Cristina que é uma mulher incrível! Ela é demais, totalmente conectada com a natureza, meio bruxa e uma coisa que ela sempre fazia quando a gente era criança era contar histórias, histórias de terror principalmente, mas ela também inventava muita história. Ela é muito mentirosa, mas muito mentirosa! E eu criança sempre fui também muito mentirosa. Agora eu sou mais controlada, mas eu sou mentirosa de natureza, eu gosto de inventar. Mas é uma mentira do bem, de ver a coisa acontecer de um jeito feliz, não uma mentira para prejudicar. Uma mentira que minha avó tinha e que eu herdei.

Mas oficialmente eu comecei numa editora. Há muito tempo aconteceu um teste para ser contadora de histórias num projeto e eu passei. Eu nunca tinha contado histórias, e no dia do teste até me chamaram pra dizer que eu tinha dom pra contar histórias e eu fiquei pensando: dom?! Será que isso vem com prazo de validade? Na época fiquei com esse questionamento, mas gostei e comecei a contar. Nesse trabalho era muito importante o que funcionava e o que não funcionava, e o máximo do elogio era a contadora que tinha total controle sobre as crianças. Isso, em parte, me ajudou a ter tônus. Mas, por outro lado, pouca era minha pesquisa em contar histórias. Eu fui percebendo que o material das histórias era muito poderoso porque eu me curava de várias coisas e entendia várias coisas em mim lendo e contando aquelas histórias, mas eu não entendia o quão profundo podia ser esse trabalho.

Você é cientista social. Como essa cientista social aparece na sua contadora de histórias?

As coisas foram conversando. Eu sempre gostei de contar história ouvindo. Sempre gostei da escuta, de construir algo coletivo que eu não sabia direito como fazer, mas eu ia tentando. E o que eu aprendi com as ciências sociais, principalmente em antropologia; nos estudos das sociedades tradicionais; na antropologia urbana; os fluxos das cidades; os campos de força; foi de fundamental importância para eu poder estudar e me aprofundar nas histórias. No que eu penso como campo mítico que vai além da nossa realidade, é uma realidade tangível, mas, que a gente não acessa muito, e quando a gente acessa é muito legal. E as ciências sociais deram substância, deram um estofo teórico que funciona como um pilar no qual você se apóia e segue, sem te engessar. Esse lado “cabeçudo”, de pesquisa, eu vi que era um caminho com janelas, não era a um caminho que ninguém trilhou, que nunca foi estudado. Já havia alguns indícios neste caminho que as ciências sociais me deram. Saber como é a estrutura de povos indígenas, por exemplo, das sociedades africanas. É uma universidade que abre a cabeça.

E tudo isso aparece no seu trabalho com As Rutes. Qual o lugar que as histórias têm no trabalho de vocês?

A narrativa sempre está presente, mas, a narrativa está num lugar da experiência: que é viver algo junto e narrar o acontecimento vivido. A gente chega com uma proposta, normalmente é uma pergunta e essa pergunta vai trazer uma narração, vai trazer um acontecimento que depois vai ser narrado. A narração é sempre importante para abrir o que a Regina Machado chama de reino das possibilidades, adoro isso que ela fala. Quando você abre para essa ficção, que você propõe às pessoas uma ficção do tipo: histórias de assombrar; dar as mãos para atravessar a ponte; contar uma história e pedir para a pessoa criar um final; você abre para esse reino e nele a gente pode ser e fazer outras escolhas. E para mim isso tem a ver com esperança, que é imaginar as coisas de um jeito melhor, criar novos possíveis. Isso, na verdade, é o ideal do trabalho. A capacidade de imaginar é saudável e todo mundo tem direito, mas hoje isso é rechaçado. As pessoas imaginam pouco e por isso vivem em sistemas muito padronizados, encaixotadas. As histórias e as narrativas têm o poder de dar poder ao sujeito para seguir o seu próprio caminho, e a narrativa dele pode encontrar com essas outras.

Uma característica que um contador de histórias tem que ter e uma que ele não pode ter?

O que eu acho que o contador precisa ter, que não se ensina na escola de teatro, é uma coisa chamada vulnerabilidade. O contador de histórias precisa ser poroso, permeável. E quando eu vejo um contador de história nesse estado, pra mim, é o estado de maior beleza que ele tem. Esse é um pouco o estado do palhaço. O palhaço te chama pra viver o tempo presente, só o agora importa, e o contador também. Ele tem que se jogar no instante seja pra errar, seja pra acertar, seja pra comunicar ou não comunicar. Quando isso não acontece, eu fico muito chateada, quando eu vou pra um encontro e fico fechada.

E quando isso não acontece você sabe dizer por que não aconteceu?

Sei. Normalmente é porque eu não estava com o coração aberto, disponível. E tem tanta coisa que fecha nosso coração: medo, insegurança, alguém que chega pra ouvir a história, sua terapeuta por exemplo. Coisas que acontecem e que te arrebatam e te fecham, é imponderável. Mas na maioria das vezes com respiração, com concentração, com alongamento, com coisas que fazem você se aproximar do seu corpo, isso fica mais difícil de acontecer. Eu acredito nisso porque minha formação também é teatro. É bom você estar conectado com aquilo que você se propôs a fazer e não cheia de ruído.

Outra coisa que eu acho que é importante para ser contador de histórias é ter curiosidade sobre esse material que são as histórias. Saber que se está mexendo com uma coisa muito séria. Eu acho que hoje em dia isso falta um pouco nos contadores de histórias de modo geral, saber que isso que a gente leva para as pessoas é muito sério, é ancestral, é uma corrente de pessoas que fizeram isso desde que o mundo é mundo. Isso é muito forte, muito potente. E é preciso ter noção disso.

E como você “guarda” suas histórias?

Eu tenho mil cadernos de estudo de histórias. À vezes, eu reescrevo a história, depois faço um roteiro seco, faço anotações, vejo que outras histórias se relacionam com aquela, às vezes, faço até um desenho da história, não sou boa desenhista mas procuro pensar em esquemas, imagens. Mas isso de ter caderno é uma coisa mais recente, de uns tempos pra cá. Antes era mais “se vira nos trinta”, lia, pensava como ia fazer e ia. Agora não, agora eu estou mais criteriosa com o estudo das histórias, da estrutura. Estou achando que é muito legal investigar. Pesquisando você descobre que elas são parecidas em muitos aspectos.

Tem alguma coisa que você sempre “se pega” fazendo quando está contando, mas que você não quer fazer?

Tem duas coisas que eu sempre faço: eu sempre acelero onde não é pra acelerar, de nervoso; e ficar afobada, a primeira coisa que você perde é a escuta quando você está afobada. E é muito engraçado: quando eu começo afobada eu não consigo reverter mais, vai torto até o fim. Mas quando eu me afobo no meio, eu presto atenção na minha respiração, tento confiar mais, por os pés mais no chão, acalmar o corpo e aí vai.

Hoje em dia toda arte é considerada, pelo menos em parte, um produto. O que você pensa sobre isso e como você “vende” o seu “produto”?

Isso é uma coisa que tem que ser pensada mesmo. A gente tem que saber vender, ter estratégia, saber quem é esse nosso “cliente”. Desde a parte gráfica do projeto, até o blá que você vai passar, acho que se tem de entrar nesse jogo. Mas tem de se tomar cuidado pra não fazer só o jogo do outro, tem que tomar cuidado pra você ser sujeito nesse jogo. Tem coisas que não dá pra abrir mão! E eu acho que uma coisa importante é você ter, em pelo menos um dia da semana, algum tempo seu que não é esse tempo da roda viva, da roda da fortuna. Um tempo seu que não o lugar do comércio, do vender o peixe, mas é o lugar da sua verdade. Teve uma época que eu trabalhei fazendo só a demanda, eu fazia para os outros. Eu não tinha esse trabalho que eu tenho de uns cinco anos pra cá, que é de ter a qualidade do tempo pra fazer o meu sonho, a coisa que me faz viva. O espaço teu de lidar com o maravilhoso. Um lugar de olhar o seu filho crescer e tirar experiência disso, um lugar do silêncio. E é o lugar de pegar uma história e estudar. Eu quero estudar essa história. É pra vender? Não, não é pra vender, eu só quero conhecer essa história. Ou eu quero escrever uma história…

Porque essa nossa vida é muito louca e a gente acaba fazendo as coisas só pela demanda e não faz nada que toque esse lugar que é sagrado e que a gente não pode perder.

Eu acredito que as histórias que a gente conta, contam um pedacinho da gente. Qual história você acha que mais conta você ou que você mais gosta de contar?

…uma história… (pensando)… eu gosto, eu gosto muito e conto sempre, uma história que está até no espetáculo No meio da noite escura tinha um pé de maravilha que é O filho mudo do fazendeiro. Eu gosto muito dessa história e eu acho que é por conta da heroína, ela é meio Sherazade. Ela tinha que contar essas histórias pra não morrer, as histórias que salvavam a vida dela. Onde que você se agarra pra caber nesse mundo, são nessas histórias que eu me agarro, acho que essa é a metáfora.

#entrevista #contadoradehistórias #CristianaCeschi

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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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