• Emilie Andrade

Contar histórias na cidade


"Para ser um bom contador de histórias, deve-se estar gloriosamente vivo. Não é possível acender fogueiras novas

com brasas apagadas. Noto que os melhores contadores tradicionais que tenho escutado são aqueles que vivem perto

do coração das coisas - da terra, do mar, do vento e do tempo. São aqueles que conhecem a solidão e o silêncio."

Ruth Sawyer

Era uma vez esse corpo que eu sou e que nasceu em uma cidade grande, no meu caso, São Paulo. E como é uma cidade grande na minha experiência vivida? Cheia de sons, poluição, gente, com pouco tempo e sem horizonte, literalmente. Sim, existem coisas boas, mas perceba que a minha tentativa aqui é menos de avaliar e mais de descrever o que percebo (outra pessoa pode ter outras percepções completamente diferentes). Os espaços públicos tão maravilhosos das cidades grandes (teatros, cinemas, museus, parques), infelizmente, não fazem parte do meu cotidiano e o que há de mais lindo no viver a cidade são as relações e, por isso, não entraram na minha descrição. Será que deu pra entender? ... Então, o que acontece com a gente, com o corpo que a gente é, vivendo nesse contexto?

A gente sabe que a relação do corpo com o ambiente é profunda. Estamos continuamente trocando informações, transformando o ambiente e sendo transformados por ele ao mesmo tempo. São muitos os jeitos que o corpo reage a um ambiente como esse que eu acabei de descrever, afinal, cada corpo é único, mas tem uma coisa que acontece com a maioria das pessoas por se tratar de uma estratégia para a sobrevivência. Tem alguns jeitos de chamar isso, eu chamo de ausência ou desconexão. A experiência e a percepção que a gente tem da gente mesmo vai indo embora e, com isso, o pensamento vai tomando conta. Aí, a gente só lembra do resto do corpo quando ele dói, quando ficamos doentes, quando a gente não consegue fazer alguma coisa que a gente quer ou precisa fazer (tem um documentário lindo que fala um pouco disso no Netflix chamado Innsaei #ficaadica). E isso acontece com quase todo mundo, mas, quem trabalha com as artes do encontro como o teatro, a dança e a narração de histórias, precisa ficar especialmente atento a isso. Ouve só:

Em 2010, esse corpo aqui meio desconectado de si, decidiu que ia contar histórias o resto da vida. E o que aconteceu com esse meu corpo raquítico e esses meus pensamentos obesos (como diz a Viviane Mosé)? Comecei a trabalhar com as histórias de um jeito só: leitura, análise, interpretação de texto. Tudo isso também faz parte do trabalho, o problema é que só isso não dá conta de tudo que envolve encontrar o público ao redor de uma história. Claro, que quando eu lia as histórias, elas despertavam emoções, sensações no corpo todo, mas eu ainda não conseguia trazê-las junto comigo conscientemente nessa viagem até o ato de narrá-las. Os gestos aparecem, as tonalidades da voz acompanham, mas tão desconectada de mim que eu estava que tudo isso vinha sem saber, sem perceber, sem escolher.

Em 2012, encontro a Técnica Klauss Vianna (em linhas gerais, uma técnica de dança e educação somática criada pelo Klauss e que nos conduz a recuperação da percepção de si, pra que a gente faça melhores escolhas e habite os corpos maravilhosos que somos). Foi então que percebi que muitas das dificuldades que eu sentia enquanto contava histórias (como responder aos imprevistos ou como captar a atenção do público, por exemplo) vinham dessa ausência, dessa falta de escuta de mim e do que me cercava. “Se eu não sou capaz de estabelecer um contato consciente comigo, eu serei incapaz de criar um diálogo profundo com outra pessoa", dizia Klauss. Contar histórias é um processo de comunicação e é a presença que permite a comunicação consciente, ou seja, é a presença que me dá a possibilidade de escolher o que eu quero comunicar de modo mais afinado com as minhas intenções. É aqui começa a minha busca maior como narradora e a pesquisa da vida inteira: como ser presente e disponível para assim, provocar a presença e a disponibilidade de quem ouve uma história que conto? Essa é outra longa história que qualquer hora eu conto mais por aqui.

Queria contar também que em breve vou me mudar. Quero experimentar viver em outros ambientes, mais perto da natureza e do coração das coisas. Quero descobrir o que isso pode me trazer, inclusive, enquanto contadora de histórias. Não é fácil dar esse salto e mudar a vida inteira. Mas, também não quero parecer ditadora de como as pessoas devem viver. Essa é a minha escolha, a minha história.

Vou contando por aqui dessa aventura de sair dessa cidade imensa e ir para o campo. Ainda bem que a internet permite a gente ficar por perto, mesmo que longe.

E você? Você já parou pra pensar o que o lugar que você vive tem a ver com a vida que você tem? Já se deu conta se a vida que você sonha viver é a vida que você vive? Qual o cenário dessa vida dos sonhos? Me conta?


*Texto escrito a partir da minha fala no Seminário Narra-te Cidade: pensamentos sobre a arte de contar histórias hoje . Realizado em 13/05/2017 em São Paulo no Instituto de Artes da UNESP.


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Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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