• Emilie Andrade

Como os mitos podem nos ajudar em tempos difíceis


Eu encontrei o Michael Meade por acaso, nesse mundão da internet e, desde então, venho acompanhando o seu podcast “Living Myth”. Ele é um contador de histórias, escritor e um pesquisador de mitologia, antropologia e psicologia.

Outro dia voltando de um trabalho, dirigindo numa rodovia, ouvi o episódio 88, que tem o título “O chão do ser”. É uma entrevista que ele deu e na qual fala sobre seu novo livro “Awakening the soul” (Acordando a alma). Enquanto ouvia, pensava na situação de iminência do perigo que essa eleição nos trouxe. Como muitos já disseram, mesmo que Jair Bolsonaro não seja eleito, todos nós já perdemos e faz tempo.

Senti muita vontade de traduzir essa entrevista por ver que esse ponto de vista mitológico é sempre esquecido e, para além disso, por acreditar que o que ele diz ali pode nos ajudar a ultrapassar esse medo e essa tristeza que cresce em nós. Acredito também que pode clarear a visão de algumas pessoas que estão sendo levadas a acreditar que essa figura grotesca poderá trazer alguma coisa positiva.

Então, escrevi para o endereço que estava site dele e essa foi a resposta que recebi:

“Obrigada, Emilie. Sim, por favor, traduza a entrevista e compartilhe onde puder. Aqui nos Estados Unidos nós estamos vivendo a experiência do que significa ter um líder que muda drasticamente uma nação e impacta milhões de vidas e o meio ambiente de todos. Agradecemos pela luta.”

Então, segue aqui uma tradução feita na urgência, com o coração com pressa, com o desejo de contribuir para que o segundo turno tenha um resultado a favor da vida. Me desculpo antes pelos prováveis erros, mas dia 28 não tarda.

Seria muito bom saber como essa conversa ecoou em vocês.


Você começa o seu novo livro “Awakening the soul” com um fragmento de um conto de 45.000 anos, que ressoa até hoje e que pra mim destaca a natureza cíclica das crises, a natureza cíclica do mundo e a natureza cíclica humana. Eu gostaria de começar com isso e falar sobre como, frequentemente, a nossa cultura pensa no tempo como uma progressão linear. Nós não vemos as coisas em ciclos, nós estamos sempre indo adiante. Eu queria começar nossa conversa olhando pra como, talvez, de alguma maneira, nós já passamos por isso que o mundo está passando agora.

Todas as grandes histórias do mundo são sobre desastres, são todas sobre tarefas impossíveis. Sem querer diminuir a dor de estar vivo hoje, a confusão e as distorções intencionais, mas alguma coisa na alma humana persistiu a esse tipo de coisa muitas vezes. Eu começo o livro com esse fragmento de um papiro de 45.000 mil anos do qual li algumas traduções que contam de um homem cujo mundo está desmoronando, tudo está de ponta cabeça, muito violento e todo esse tipo de coisa que soa como um rap lançado essa semana.

É muito imediato e foi o meu jeito de dizer que, para a alma, nós sempre estivemos nesse momento. Num certo sentido, o tempo passa, mas em outro, o tempo nem existe na verdade e no tempo da alma é como se fosse sempre o último minuto. É sempre um momento de “eu vou ser capaz de dar o próximo passo na direção de uma vida genuína?”. Esse é o momento que me interessa.

Como humanos sempre estamos ligados à sobrevivência e nós nunca olhamos para o que nos levou até aquele momento.

No que se refere a alma, o mundo está sempre no momento da criação. Se você quiser uma perspectiva mais trágica, está sempre num momento de perda. Existe um truque nessa ideia de progresso. Sim, há progresso em muitas maneiras, mas também há pessoas votando pelo retrocesso, por exemplo. Assim, temos muitos sinais de que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo.

Me parece que vamos viver em tempos difíceis por um tempo. Provavelmente, a maior crise que vivemos no momento é a crise ambiental por ser uma questão que se apresenta no mundo todo e pode virar tudo de ponta cabeça a qualquer momento. A outra grande crise é humanitária e está afetando o mundo todo no nível cultural. Mas, então, eu me interessei por uma terceira crise que é a crise da verdade e do significado. Então, a premissa do livro é que se não conseguirmos encontrar uma maneira diferente de viver e dar significado e verdade ao vivido, nós não poderemos resolver as outras duas crises. Se a alma de alguém não está desperta, ela facilmente entra na ideia de que porque uma pessoa é diferente, ela é menor. Essa é uma posição não acordada pra mim.

Então, eu penso nas crises como condições nas quais a alma tenta acordar e, no livro, eu tento olhar pra isso com dois pontos de vista. O primeiro é o da alma do indivíduo (ou alma individual), como as pessoas costumavam dizer “toda a história é feita a partir do despertar da alma do indivíduo”. O segundo é da “alma do mundo”. Como o mundo está em crise, existe algo de instintivo nas nossas próprias almas que, se nós permitirmos, quer contribuir para a cura do mundo. E pra mim, isso que faz o momento dessa crise mundial ser significativa.

No livro o que eu tento argumentar é que significado é a nutrição da alma e quando se diz, como tem acontecido muito, “não existe verdade” o que acontece é que se nega também a alma e essa é, talvez, a maior crise: a perda da alma no mundo, entendendo alma como aquilo que nos conecta a todos.

E o que é a alma?

A distinção usual pra se chegar na ideia de alma é a seguinte: o espirito está tentando ascender, o espírito está acima, está ligado ao fogo e ao ar, o espírito diria “vamos fazer isso!”, “vamos melhorar!”. A alma está conectada com a terra e com a água e tentando descender. A alma está dizendo “enquanto estamos imaginando grandes coisas, vamos ao mesmo tempo nos aterrar”. O espírito se move na direção da unidade universal e a alma se move em direção da diversidade e da multiplicidade, do mesmo modo que a natureza faz.

Assim, também poderíamos dizer que o espírito tende a ser masculino, mais como o sol, que mantem um tipo de estado de brilho constante e a alma é mais como a lua, mais feminino e assim mais alerta à mudanças, mais conectada ao corpo e à diversidade e à multiplicidade. Então, alma é aquilo que nos faz estar mais genuinamente vivos, que nos faz habitar nosso corpo, que nos dá propósito e também é o tecido conectivo entre a natureza e a cultura humana.

Toda a aventura ocidental nesse momento é sobre velocidade, brilho, invenção e inovação, mas apenas no sentido técnico do relógio. Cada vez teremos mais tecnologia. Estamos todos completamente loucos com tudo isso e todo mundo está cada vez mais isolado com seus aparelhos e isolamento é perda de alma. Conexão vem do sentimento de estar na presença uns dos outros e na presença da natureza. Alma também é sobre o que a gente ama naturalmente, quem a gente ama e como a gente ama.

Então, todos esses objetos brilhantes nos distraem do fato de que a gente realmente preferiria estar no meio de uma floresta inspirando a vida das árvores e comungando com isso, ou o que for que o indivíduo preferiria fazer.

Existe uma erosão da ganância sobre a realidade que está parcialmente conectada com o fato do mundo estar de ponta cabeça no que se refere ao clima e à cultura.

Aí a gente precisa de alguma coisa pra se apoiar. Pessoas que não sabem que têm uma alma, normalmente, se agarram à uma ideologia, se agarram à alguma coisa que diz “essa é a coisa certa e nós somos as pessoas certas”. Isso pra mim indica uma perda da alma, a perda de um entendimento de que carregamos em nós, de alguma forma sagrada e miraculosa, conexões instintivas com o mundo em torno de nós. Quando os problemas aparecem, e eles estão aqui de verdade e vão continuar chegando, a resposta mais apropriada é aquela da alma profunda.

Exatamente aquilo que está faltando na nossa cultura hoje, é o que precisa ser reanimado na profundeza do indivíduo.

Não é que a gente não sabe o jeito certo de votar, ou não conhece maneiras mais significativas de sustentar comunidades num nível básico, mas mais importante é que a gente acorde aquilo que é profundo na alma, aquilo que através da história reagiu às grandes crises. Uma grande crise como essa é um desafio para a cultura e para imaginação.

Existe uma ideia antiga de que a nossa alma escolhe a hora que quer voltar ao mundo. Ninguém pode provar se isso é certo ou não, mas o que é interessante nessa ideia é a segunda parte que é: nós escolhemos voltar no momento em que temos alguma coisa pra dar ao mundo. Isso é uma coisa que eu mantenho sempre na minha cabeça:

como cada um de nós encontra um jeito de dar alguma coisa a um mundo que está explodindo, que está de ponta cabeça?

No fim do livro eu trabalho com uma ideia que eu chamo de “viver em verdade” e, pra mim, isso quer dizer: eu sei que eu vou morrer um dia e eu sei que, estando mais velho agora isso está mais perto do que longe, então, onde eu quero estar quando esse momento chegar? Eu quero estar no caminho que a minha alma deseja, eu quero estar caminhando na verdade da minha própria alma. Mas, a outra parte disso é que se você está no mundo agora, você nasceu com uma singularidade, todo mundo tem propósito, todo mundo tem um alvo.

Por exemplo, se alguém diz, minha vida tem a ver com fazer as coisas crescerem, com semear coisas que nascem da terra, como eu posso fazer alguma coisa que afete os grandes problemas desse mundo? Acontece que isso afeta sim os grandes problemas do mundo, porque alguém que tem esse tipo de amor em si, esse tipo de conexão com o mundo pode, por exemplo, ajudar a espalhar permacultura, que é um jeito brilhante de se conectar com a terra, alimentar as pessoas e não fazer parte da destruição do mundo. Então, o que eu acho que acontece se uma pessoa está vivendo o caminho genuíno da sua alma, é que ela pode cruzar caminhos nos quais pode também afetar o meio ambiente e suas comunidades locais.

É sobre isso que estamos falando, não sobre estar certo ou errado. Nós estamos aqui pra sermos cada vez mais quem somos e, ao nos tornarmos quem somos trazemos benefícios não só pra gente, mas para as pessoas a nossa volta e para a alma do mundo.

A expansão da alma é o antídoto para essa condição explosiva do mundo. Nós estamos todos juntos nesse planeta e temos que aprender como estar em contato uns com os outros, que é outra função da alma: nos manter em contato e assim, encorajar o crescimento genuíno da singularidade de cada um.

Eu também penso nos jovens que estão por vir. Imagina alguém que está chegando nesse mundo agora? Outra coisa que eu diferencio no livro é o que chamo de “velho destrutivo” e o “velho melhorador da vida”. Então, outro modo de olhar para o Donald Trump, por exemplo, é como o “velho destrutivo”, seu papel é destruir a vida das pessoas e ele é um sintoma.

E qual o antídoto? Pra mim é clara a distinção entre aqueles de alma perdida que, de alguma maneira, acham que tudo bem separar crianças dos seus pais, por exemplo. O antídoto é fazer crescer a nossa própria alma e encorajar o crescimento das almas dos outros. Eu estou usando a imaginação mítica que diz que cada alma tem um caminho, um propósito, um alvo. Então, ao cuidar da alma nós estamos apoiando os alvos uns dos outros e, de alguma maneira, nós começamos a encontrar o mundo no qual a gente quer viver.

Você diz no livro que, em momentos difíceis, as transformações internas precisam vir antes das transformações nas circunstâncias externas e que a graça salvadora das prisões modernas da literalidade e do niilismo podem ser encontradas em movimentos na direção das capacidades visionárias do mito e da imaginação.

Estamos tentando resolver os problemas no mesmo nível no qual eles surgiram, mas para realmente resolver um problema nós temos que ir para um nível diferente, então, o poder central da alma, além de Eros ou amor, é a imaginação. É o único caminho para sairmos desses problemas imensos.

Todas as operações e sistemas dentro da política e da economia estão baseados num nível superficial de troca de bens e ideias. A dificuldade pra substituir tudo isso é tão grande que, mesmo se a gente conseguisse limpar a casa e trocar todas as pessoas, que eu sou a favor, a questão seria: essas pessoas conseguiriam ter imaginação suficiente para tentar descobrir o que podemos fazer como indivíduos e comunidades para lidar com os imensos problemas das mudanças climáticas às transformações culturais? Eu acho que mesmo se a gente tirasse da situação essas pessoas problemáticas que estamos vendo aceder ao poder, a gente ainda ia ter de encarar essas questões enormes.

A única coisa a altura que eu encontrei é a alma humana que é, secretamente, conectada com a alma do mundo e pode não só contribuir com sua cura, mas também pode tirar energia dela.

A internet nos trouxe a possibilidade de saber o que está acontecendo ao redor do mundo em tempo real. Nós vemos os efeitos devastadores das mudanças climáticas, genocídios, refugiados na Síria, guerras. Nós sabemos de tudo isso, mas temos uma possibilidade muito limitada de impactar todas essas situações. Temos que estar informados sobre tudo isso mas, ao mesmo tempo, eu fico pensando em como podemos não nos sermos soterrados com a sensação de impotência?

Um dos problemas que eu vejo com frequência é o mito do herói ou a ideia do herói. Trump ainda está surfando nessa onda: eu sou o único que pode consertar o país. A ideia do homem forte, a ideia de que há uma resposta heroica pra tudo isso. É como um sintoma extremo de heroísmo negativo. Me parece que temos que aceitar que, em um nível, somos um pequeno pontinho nesse universo e, em outro nível, em cada alma existe uma faísca daquela estrela original que explodiu no universo, ou qualquer história que cada um queira contar sobre isso.

De todo modo, nós estamos secretamente conectados com o centro de tudo. Uma das coisas que se relaciona com isso são os sonhos. Eu estudei modos de lidar com os sonhos em diversas culturas e descobri uma pequena tribo, que vive perto do rio Amazonas, que diz que quando adormecemos a noite a alma do corpo vai dormir, mas, a alma do sonho viaja ao centro do cosmos de onde traz uma mensagem para trazer ao mundo. Quando a alma do sonho volta ao corpo, ela tem que usar a linguagem da vida daquela pessoa para entregar a mensagem. Acho fantástico que uma pequena tribo, até 30 anos atrás não tinha contato com esse mundo, tenha a ideia de que cada um de nós é conectado com o universo. Pra mim, não heroicamente, nossa conexão uns com os outros vem da nossa conexão com a natureza e da nossa conexão com o cosmos e, se nós fizermos uma pequena mudança em nós, podemos afetar as coisas de uma forma distinta. Esse é o nosso trabalho. Mudar o mundo começa dentro da alma. Mudar o mundo é, primeiro, um trabalho interno.

Existem duas coisas que fazem uma mudança ser possível. Primeiro, é o despertar de alguma visão, de alguma coisa que diz internamente “é preciso mudar”. O que a alma quer fazer é mudar tudo, isso é o que alma faz: transformar-se. Como se dissesse, “eu preciso me tornar como se fosse outra pessoa”. Mas, pra que isso aconteça, alguma coisa tem que morrer, algo precisa ser deixado pra trás, como a cobra que deixa a pele velha e sai dela diferente, inteira, com uma nova pele e uma nova vida. Ao invés de deixar pra trás, especialmente coisas que não entendemos, nós carregamos muitos corpos mortos conosco, nossos fracassos, nossa autodepreciarão. Isso tem que ser abandonado pra que uma nova visão crie raízes, pra que a alma expanda. Isso é a coisa mais difícil. Culturalmente, isso é super difícil.

Todos nós sabemos que o que está acontecendo não está funcionando, é doloroso ver o que estamos fazendo com o mundo porque não vemos mudanças vindo, mas abandonar tudo isso que está dado é ainda mais doloroso.

A única maneira que eu posso abandonar tudo isso é se eu sou capaz de imaginar que a minha alma é maior que o meu entendimento de mim mesmo e, a partir daí, abandonar essa visão de mundo. Eu também quero dizer que isso é verdade em qualquer idade. Do ponto de vista da alma, uma pessoa no seu último suspiro ainda pode abandonar tudo isso.

Eu termino o livro com a história de um homem que buscou a verdade toda a sua vida e que está morrendo numa cabana na montanha. É uma história muito antiga da África indígena. Ele buscou a verdade sua vida toda e agora, ele se dá conta de que nunca vai encontrá-la e então, uma pena aparece flutuando, é uma pena do chamado pássaro da verdade. Com seu último suspiro ele levanta a mão e pega a pena. No final a gente quer dar um último suspiro e dizer: eu não me tornei a descrição do que as pessoas fizeram de mim, eu não me tornei aquilo que todos esperavam que eu fosse. Eu expressei a minha vida através de minhas ações e do meu ser. E nós temos que continuar procurando os antídotos contra tudo isso que quer nos transformar em alguém que não somos, essa é a luta na qual estamos hoje.

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