• Emilie Andrade

A mulher que tece o mundo.

Faz uns cinco anos, mais ou menos, que escolho uma estória pra me guiar no começo de cada ano. Essa tradição começou sem querer com um conto escolhendo a mim. Também escolho uma palavra que junto com a estória cria significados bem profundos que me ajudam (e se revelam ao longo dos meses) durante o ano. Para 2020, escolhi a palavra LUZIR e essa estória que traduzi aqui embaixo.


Conheci a estória através do Michael Meade de quem eu já falei nesse post aqui sobre Como os mitos podem nos ajudar a viver nesses tempos difíceis. Essa versão que trago aqui é a minha versão a partir da tradução da dele. Uma estória que fala diretamente com a gente, seres viventes em 2020 que vivem no planeta Terra. Essa ideia de fim de mundo tão presente nos dias de hoje, pode ser revista sob uma perspectiva mítica: a morte como renascimento cíclico.


Espero que gostem.


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Os nativos norte americanos contam uma história antiga sobre o que acontece quando os tempos se tornam incertos, quando os fios da existência se soltam e tudo parece estar se desfazendo novamente. É uma história de um tempo quando as pessoas aprendiam diretamente do mundo natural, quando o mundo estava falando e as pessoas sabiam melhor como ouvir a surpreendente fala da natureza.


Essa é a história que eles relembram sempre que os tempos ficam difíceis, quando o mundo parece se tornar um lugar mais sombrio e todo mundo fica desorientado.

Os idosos das tribos contavam sobre uma caverna especial onde o conhecimento das maravilhas e do funcionamento do mundo poderia ser encontrado.


Mesmo agora, alguns dos povos nativos dizem que a caverna do conhecimento existe e pode ser descoberta novamente. "Não muito longe", eles dizem, mas ninguém parece encontrá-la mais. "É uma pena", dizem eles, porque dentro da caverna pode-se encontrar um conhecimento genuíno sobre como agir quando os tempos sombrios se aproximam novamente e o equilíbrio do mundo se desvia da ordem e cai no caos.


Dentro da caverna, vive uma velha que não é afetada pela pressa do tempo, pela confusão e pela luta da vida cotidiana. Ela se dedica a outras coisas; ela tem uma percepção mais longa do tempo e uma capacidade de visão profunda. Ela passa a maior parte do tempo tecendo nessa caverna onde luz e sombras brincam/dançam. Ela quer fazer a roupa mais bonita do mundo inteiro. Ela tem estado neste projeto de tecelagem por um muito tempo e já chegou a um ponto de fazer uma franja para a barra desse manto primorosamente projetado. Ela quer que essa franja seja especial; quer que seja significativa e elegante, então ela tece com espinhos de porco-espinho que ela deve achatar cada um com os dentes. Depois de anos mordendo duramente os espinhos, seus dentes se tornaram desgastados que mal se elevam acima de suas gengivas. Ainda assim, a velha continua a morder e continua a tecer.


A única vez que ela interrompe seu trabalho de tecer é quando ela vai mexer a sopa que ferve em um grande caldeirão na parte de trás da caverna. O velho caldeirão fica sobre um fogo que começou há muito tempo. A velha não se lembra de nada mais antigo que esse fogo; pode até ser a coisa mais antiga que existe neste mundo. De vez em quando, ela se lembra de ter que mexer a sopa que ferve sobre as chamas. Aquele cozido fervente contém todas as sementes que se tornam os grãos, plantas e ervas que brotam por toda a superfície da terra. Se a velha não mexer o cozido de vez em quando, o fogo queimará os ingredientes e não se pode nem contar quais problemas podem resultar disso.


Então a mulher divide seus esforços entre tecer o manto extraordinário e mexer a sopa elementar. Ela sente quando chegou a hora de deixar a tecelagem e mexer as sementes novamente. Então, ela coloca o tecido no chão e se levanta para ir para a tarefa de mexer a sopa.

Porque ela está cansada de seus trabalhos e por causa da passagem implacável do tempo, ela se move devagar e leva um tempo para ela chegar até o caldeirão.

Enquanto a velhinha se dirige para a parte de trás da caverna, um cachorro observa cada movimento dela. O cachorro estava lá o tempo todo. Aparentemente adormecido, desperta assim que a velha tecelã muda de uma tarefa para outra. Quando ela começa a mexer a sopa para não queimar as sementes, o cão se levanta e vai para onde está o manto. Pega um fio solto com os dentes e começa a puxá-lo. Quando o cachorro puxa o fio solto, a bela peça começa a se desfazer.


Enquanto o grande ensopado está sendo mexido, a elegante roupa está sendo desfeita e se torna um emaranhado no chão. Quando a velha volta para retomar sua obra, não encontra nada além de um caos onde havia uma peça de grande elegância e beleza.

O manto que ela tecia com tanto cuidado foi desmanchado, a franja toda desfeita; todo seu esforço da criação foi reduzido a nada. A velha senta e olha silenciosamente para os restos de seu antigo tecido. Ela ignora a presença do cachorro enquanto olha atentamente para o emaranhado de fios desfeitos e padrões distorcidos.


Depois de um tempo, ela se abaixa, pega um fio solto e começa a tecer tudo de novo. Enquanto puxa linha após linha da bagunça caótica, ela começa novamente a imaginar a roupa mais bonita do mundo inteiro. Enquanto tece, novas visões e ideias maravilhosas aparecem diante dela e suas velhas mãos começam a conscientemente dar a elas uma forma vibrante. Logo, ela já esqueceu da roupa que estava tecendo antes, concentrando-se em criar seu novo modelo e tecê-lo na peça de roupa mais bonita já vista no mundo.


Os velhos chamam essa tecelã persistente que lida com os fios da existência de "A Velha Mulher do Mundo".



Fotografia de uma mulher Hupa tecendo um cesto. 1900.: fotográfo A. W. Ericson, Photograph. Collection of Oakland Museum of California.


Um jeito de começar a se aproximar das histórias é cuidar da sua própria. Quer experimentar?

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"ÁRVORE DA VIDA.

 

Emilie Andrade / Brasil / 55 16 98220-4398

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Além de artista da palavra, sou estudiosa e facilitadora de práticas narrativas. Uma metodologia que acompanha pessoas e organizações na re-autoria das próprias narrativas.

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